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Com uma festa planejada há mais de mês, algo sempre fica para a última hora – ou a penúltima, porque sempre se dá um jeitinho. E, assim, saí para comprar um cabo de áudio que permitiria levar as músicas do computador para a caixa de som naquela que seria um festa de celebração. Comemorava, pois, os cinco anos de felizes dias com minha namorada. Vai daí que, após encontrar o cabo, ainda decidi por passar numa banca de revistas, pois me sobravam alguns minutos até o evento começar. E eis que, quando estava por pagar ao caixa o que lhe era devido, eu e os outros que ali estavam fomos surpreendidos por dois bandidos armados indicando que se tratava de um assalto.

Numa mistura de medo e calma impelidos, ainda impedi que um dos presentes entregasse seu parco dinheiro aos assaltantes, dizendo-lhe em voz baixa que o melhor era não se envolver. Acuado pelas armas de fogo apontadas sobre si, o dono da banca que entregou o dinheiro do caixa, mas os criminosos ainda queriam mais e mais. Por entre as cinco ou seis pessoas que acompanhavam tudo constrangidas pela violência urbana e social, pude observar a filha do dono no canto da banca feito um anjo triste orando por seu pai, o rosto a dividir expressões de nervosismo e choro.

Não sei precisar os longos poucos minutos que toda a ação demorou, talvez quatro ou cinco ou mais ou menos, mas enquanto ali estava pensei rapidamente nas pessoas que gostava e que gostam de mim e no que tudo aquilo significaria dali algum tempo. Outra história para contar? E as pessoas já não estão cansadas de histórias assim?

Felizmente, ninguém saiu ferido, mesmo que algumas marcas possam ficar presentes em nossas mentes por muito e muito tempo. Deixei meu telefone com o proprietário do local, e fui para a festa com o coração acelerado e minhas mãos um pouco trêmulas, ainda mais após o cidadão que oferecera dinheiro aos ladrões me contar que pretendia pegar a arma de um deles, numa revolta aparentemente irresposável para todos. Quiçá tenha eu evitado o pior e, como recompensa, pude festejar com minha família e meus amigos o pouco de amor que ainda há no mundo.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 23/09/2010.

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