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Do fato mais sutil para as grandes verdades existe um caminho extemporâneo que tange a educação e seu inevitável passo seguinte: a sabedoria. Dia desses estava caminhando tranquilamente numa das poucas calçadas dignas de nota quando, repentinamente, fui atingido no braço por um guidão de bicicleta em local inoportuno – o jovem que pilotava a magrela sequer parou ou olhou para trás. Não houve sutileza naquela falta de moral assumida. Pessoas com moral são as primeiras em admitir erros ou deslizes que as tornam humanas, mas bem educadas.

Do fato mais sutil conseguimos recuperar expressões mínimas, ainda que sobremaneira importantes. Se mesmo as questões mais simples podem ter respostas múltiplas, que dizer da pobreza dos pensamentos que pululam em ambientes profissionais, escolares e íntimos? Foi depois dos meus 25 anos que desenvolvi o hábito de utilizar os pronomes de tratamento “senhor” e “senhora”, principalmente quando do meu contato com pessoas de mais idade. Tal fato se deve um tanto pela necessidade e outro tanto por entender que respeito é mais aos outros do que para nós mesmos. Vaidade e respeito são antagonistas de uma história tão antiga que chega a ser pré-histórica.

Do fato mais sutil passamos para o uso entusiasmado da abordagem ética. Os argumentos que não se perdem nas dicotomias facilitam o diálogo; coisa que não se aprende na escola. Em meus tempos estudantis, participei de muitas bobagens próprias da idade, mas sempre tive fascínio pelas explicações bem fundamentadas. Dizem que as mulheres não são tão objetivas quanto os homens porque, sensíveis que são, tornam os detalhes mais importantes que os fatos em si. E os papos que me vêm à mente são aqueles com as garotas da minha idade que descobriam o mundo, quais adolescentes numa investigação antropológica juvenil.

Do fato mais sutil sobram gentis horas; a lamentar que os minutos perdidos com disparates sobressaiam além do desejado, tempo precioso que não é utilizado para cantar músicas de protesto ou fazer bolinhas de sabão. Sempre fui muito tranquilo quando daquelas ligações insistentes de assinaturas de revistas ou para fazer um cartão de crédito num banco qualquer. Atendo a funcionária treinada nas artes do convencimento e do falar gerundiando de tal maneira que as perguntas são respondidas com negações diretas, sem margem para divagações. Ao negar rapidamente e com alguma paciência gentil, economizo momentos produtivos para os dois lados da linha telefônica.

Do fato mais sutil permaneço o pioneiro; não porque minhas atitudes saíram na frente, mas porque compreendi que são de sutilezas que o mundo desejado está ausente.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 07/10/2010.

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