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Sinceramente, a ideia do mundo terminar me parece coisa de preguiçoso conservador, ou ainda fruto das mentes romântico-trágicas quando a relação se defaz. “É o fim do mundo”, diz a pessoa enamorada. Vanguardistas jamais se prenderiam em pensamento lineares do tipo “mudar, para quê? tudo vai acabar mesmo!”. E também aqueles que vivem a plenitude do amor aposentam por completo a noção do fim, pois o amor foi feito para ser eterno.

Aquelas cenas imaginadas nos livros ou filmes de ficção científica com destruições avassaladoras são meros pretextos dos niilistas para eximir-se de responsabilidades, sejam quais forem. Jogar um papel de bala no chão ou devastar uma nação, tudo pode ser motivo para não se fazer nada. Assim, a negação da existência também é ela mesma uma negação de si mesma, porque invalida quaisquer conceitos.

Do apocalipse bíblico aos momentos-chave, como as viradas dos milênios ou o ano-final 2012 do calendário maia, o que se espera é muito mais que julgamento, punição ou salvação. Mesmo as teorias dos universos e mundos paralelos, quando o tempo sempre existiu e acontece do início ao fim em todos os momentos, sincretizam visões antagônicas que invalidam as opiniões reacionárias.

Revolucionários de toda sorte compreendem as diferenças entre as espécies na unidade absoluta da natureza. Em mentes não estagnadas a extinção da Terra é tão somente um estalo sem som no vácuo da Via Láctea, mas também é uma herança do que somos e do quanto contribuímos para que os dias finais fossem melhores para os nossos iguais. Nas noites urbanas ou rurais, quando o sentimento de finitude tende a aumentar, as interpretações são cada vez mais divertidas porque nada explicam sobre como será o amanhã, mas trazem à tona o prazer da aventura do descobrimento.

Quando caminho no Centro da Ilha, entre os casarios do passado e as construções exageradas do crescimento vertical, uma indagação simples e simpática me aparece como a dizer “que vai ser de tudo isso”? Não que o auto-questionamento me incomode. Porém, receio que os dias ilhéus têm sido cada vez menos prazerosos porque o danado do mal chamado progresso fez das suas ao desmontar o coração da cidade. E, sem Miramar, sem o mar, sem amar, esses que caminham na Rua João Pinto, também conhecida como a Rua dos Sebos, chegam a aceitar a ideia do fim.

Uma melodia suave sai de um piano jazzístico e, quase depois do começo, transforma-se num agitado rock’n’roll, feito uma fábula sofrendo de bipolaridade. Quem escutar aquela música, se não for preguiçoso ou conservador, vai perceber que o mundo é só mudanças e mudará também.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 21/10/2010.

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