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Florianópolis acorda pela manhã e lava sua face nas águas do Oceano. Não mais que delicada, como o são todas as jovens princesinhas do mar, viaja com o mundo pelo espaço; a Ilha é uma dama celestial em plena terra, a Terra é a mãe zelosa que carrega em seu barco a filha sensível de natureza esbelta e sorridente. A translação e a rotação dão o ritmo da música que a cidade faz questão de dançar, abraçada ao continente através das três pontes que lhe servem de braços amigos.

Com a graça que lhe cabe no dia a dia, passam-lhe os anos com justiça a sua beleza, feito aquele retrato de Dorian Gray (ou seria o próprio Dorian?). Com alguma vaidade, é bem verdade, deixa à mostra suas pernas-praias, que aceitam o vigor do vento sul a levantar o vestido qual Marilyn em cena de filme. Se a exibição é proposital, que dizer então de seus inequívocos atrativos de musa? Lagoas, morros, cachoeiras e encostas que, quando não invadidas pela irrefreável especulação imobiliária, ainda aquecem os olhares mais frios, tiram do sério o mais polido dos seres e deixam boquiabertos aqueles que, contrariando o dito popular, jamais foram a Roma.

Em sendo boa companheira de viagem pelo cosmos, a Ilha também faz as vezes de anfitriã. Encantadora e encantada pelas quatro estações, recebe-as com o largo sorriso no rosto. Primavera e verão são costureira e alfaiate a lhe preencher os dias de cores e tons, moldando a natureza de acordo com sua silhueta esguia, porém charmosa. Outono e inverno são companheiros de paz de espírito e descanso, porque tornam os dias menos complicados, ainda que interessantes.

Mas como toda menina, como toda mulher, a Ilha também tem seus momentos de introspecção, aquelas horas tristes pelas quais todos passam vez por outra. Os motivos para as amarguras são vários: poluição, devastação e um disparate crônico que parece andar lado a lado com as autoridades que aniquilam sua nobreza mais singela: a natureza ingênua e solidária. Ingênua porque confia em seus habitantes; solidária porque jamais abandonará os seus.

Ilha menina, Ilha mulher, que somos nós se não apenas espectadores mal educados, destes que deixam a pipoca no chão ao terminar a sessão? Como podemos pedir desculpas pelas cirurgias plásticas feitas à sua revelia? De que forma o perdão que almejamos virá se nada parece ser feito para te agradar? Menina ou mulher, qual seja, assim mesmo estarás nos protegendo, dando-nos o prazer de tua presença, fazendo os dias mais felizes porque tu sempre serás nossa princesinha do mar.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 04/11/2010.

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