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Curiosamente, ou não, esta crônica que você lê hoje, aqui mesmo no Jornal Notícias do Dia, está sendo publicada no dia em que este, do lado de cá das palavras, completa 29 anos. Idade pouca, para alguns mais vividos, idade longeva para aqueles que por um motivo ou outro não tiveram a oportunidade de curtir. Curtição é, talvez, a palavra-chave dessa vida que parece tão rápida em seu cotidiano quanto o envio de um “torpedo” de um telefone celular. Curtir é sinônimo do verbo que melhor lhe aprouver, coisa que expande a experiência dos nossos dias e, por consequência, de nossa existência.

Pelo simples fato de existir, celebramos, seja numa cerimônia íntima e pessoal, ou na festa de aniversário com bolinhas de queijo ou brigadeiro (meus preferidos, cada qual em seu ramo de atividade). Entre doces e salgados, estaremos lá como personagens de um filme que só faz sentido juntando as partes; projeção experimentada na plenitude por apenas um único indivíduo, mas compartilhada nos momentos simples, singulares e significativos com todos aqueles que nos cercam.

De um jeito afável, aceitamos cordialidades de estranhos que nos parabenizam por mais um ano nesse mundo. Alguns sequer sabem o nosso nome completo, ou nos conhecem apenas por apelidos, e mesmo assim chegam com um sorriso teso no rosto e nos saúdam. E é saúde o que sempre queremos nesta biografia que escrevemos com gestos e palavras. Saúde ao dizer bom dia ou boa noite; saúde ao ler um e-mail divertido (o qual sempre encaminhamos para nossos amigos); saúde ao perceber na altivez do sol e na sobriedade da lua tudo que precisamos para não desistir.

As velas que apagamos seriam, pois, uma forma de expurgar aqueles maus olhados ou defenestrar a sujeira da alma: aqueles erros que todos têm o direito de cometer vez por outra, mas que não convêm revisitar. E no abrasileirado “Parabéns pra você”, versão de uma cantiga das irmãs estadunidenses Mildred e Patricia Smith Hill, vai-se a noção de que um dia fomos outro alguém, talvez até um pouco melhor do que hoje, mas ainda assim ciente das verdades e vaidades que nos fizeram um tanto tristes e outro tanto felizes.

O aniversário é uma pequena mentira com a qual todos concordam. Mentira porque se quer inventado e vago feito a própria contagem do tempo. E, mentirosos que somos, seguimos em frente como quem diz “doce não engorda, então me passa outro brigadeiro, por favor”.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 11/11/2010.

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