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Foi curioso conhecê-lo. Eu estava ali, sentada à beira do caminho, quando vi aquele velho senhor de barbas longas passar como quem não sabe para onde vai. O sol batia forte na sua pele já carregada das marcas que a vida colocou. Quase sem quererem sentou-se ao meu lado e permaneceu calado.

Num átimo de curiosidade (ou de loucura), decidi cortar aquele silêncio, tal qual o vento gelado faz num dia de inverno.

– O que o senhor é?

Mas que pergunta era aquela? De que parte do meu cérebro vinha tamanha ousadia? Tais perguntas não me interessavam. Minhas atenções convergiam unicamente para a resposta que, quem sabe, ele me daria.

– Eu sou você e mais 140 milhões de pessoas. Eu sou o céu estrelado que você carrega em seu peito. Eu sou tudo o que você quiser que eu seja. Eu não sou ninguém.

Por Deus nunca me vi tão perdida. Nem mesmo aquele vasto deserto em que me encontrava transmitia tanta sensação de isolamento. Depois daquelas palavras, meu coração era uma ilha deserta esperando alguém para povoar. Até hoje, quando lembro daquela voz rouca respondendo minha questão, sinto que um pedaço meu ficou naquele deserto.

– Mas o que faz aqui do meu lado? – prossegui, atônita.

– Achei que você me responderia, menina. Sabe, eu já andei muito desde que nasci. Foram mais de quinhentos anos caminhando, e muitos poemas que testemunhei. Talvez seja a hora de descansar, mesmo sabendo que ainda há muito para ser feito. Não, não pense que desisti. Sou tão forte quanto a natureza, mas também sou apenas um. Você me conhece: eu sou este país chamado Brasil.

E, dizendo isso, sorriu para mim como uma criança que ganha o doce de sua mãe. Tive a estranha sensação de que aquele era um sorriso triste, amargurado. Preferi não comentar qualquer coisa.

E, tão de repente quanto chegou, o senhor levantou-se e seguiu seu caminho… se é que ele tinha um lugar para ir.

Minutos depois, um jovem viajante me deu carona em seu veículo. Segui muda a viagem toda, não parava de pensar em tudo o que tinha acontecido.

Quando chegamos à cidade, agradeci a carona e caminhei algumas horas a esmo. Imagino que eu tentava colocar minhas idéias em ordem – o que se revelou uma tarefa frustada. Cansada de caminhar, sentei na copa de uma árvore e, ao longe, observei um menino brincando numa fonte de água cristalina. Olhando aquele menino, as palavras do senhor do deserto começaram a fazer sentido. Afinal, como num estalo, eu havia conhecido o Brasil.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 18/11/2010.

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