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Os dias atribulados no Brasil estão longe do fim que um morro carioca dito pacificado possa sugerir. Os processos históricos que culminaram nos recentes embates entre polícia (estado organizado com objetivo definido pela sociedade) e criminosos (quando o crime está pseudo-organizado sem quaisquer objetivos que não a sobrevivência) têm múltiplas explicações e, certamente, todas insatisfatórias. Assim, os governos das mais variadas esferas (que receiam em solucionar problemas porque, afinal, o que seriam dos políticos se tudo estivesse resolvido?) posam de mocinho e vilão, quando, na realidade das esquinas nacionais, não são nem uma coisa e tampouco outra.

Do Rio de Janeiro para esta nossa Ilha de Santa Catarina é um apenas um pulo, como as pessoas que andam de avião costumam dizer. E, mesmo aqueles que fazem uso dos ônibus interestaduais, sabemos que algumas horas de viagem não são suficientes para dizer que nossas realidades são assim tão diferentes. Florianopolitanos ou aqueles que residem nesta cidade pertencem à mesma pátria de cariocas. Tal situação é igual para porto-alegrenses, paulistanos ou porto-velhenses e tantos outros povos unidos sobre a bandeira verde-amarela. E se estamos todos sob o mesmo céu anil, sabemos que nossas desventuras tendem a ser similares, guardadas as proporções de praxe. O que ocorre acolá, portanto, dá-se também por aqui.

Quando os policiais, a tropa de choque e o exército subiram as favelas cariocas expulsando os criminosos de suas pequenas fortalezas, logo a lembrança do filme Matar ou Morrer (High Noon, 1952), um faroeste dirigido por Fred Zinnemann, surgiu em meu pensamento. Na película, o xerife Will Kane acaba de se casar quando descobre que um antigo criminoso está de volta à cidade após cumprir a pena devida e disposto a acertar as contas com aquele que lhe privou da liberdade. Kane titubeia, mas para o duelo pois ele sabe que, independente de onde ele estiver, o passado-presente mal resolvido vai lhe bater à porta. Pois é o que é. Sem enfrentar com vigor todos os problemas de uma só vez, a violência acaba de uma maneira ou outra entrando em nosso dia a dia, feito um filme de faroeste e sem final feliz.

Por enfrentar problemas entenda-se ir muito além de pacificar morros com a presença da força bruta do estado. Definir e aplicar programas sociais de manutenção e valorização de comunidades desfavorecidas, por exemplo, já seria um bom ponto de partida. Do contrário, estaremos apenas expulsando bandidos de um lugar para o outro e nos tornaremos tudo aquilo que mais detestamos, seja no Rio, seja na Ilha.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 09/12/2010.

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