Tags

, ,


De quando em quando, encontramos nós mesmos naqueles que nos antecederam, que nos são tão próximos, pessoas queridas como são nossos parentes que já estavam por estas paragens antes mesmo da nossa existência. De vez em quando, encontro-me nos gestos e detalhes dos meus avós maternos.

Queridos por filhos, netos e bisnetos, meus avós são opostos que se completam. Diferentes personalidades que compartilham as horas há mais de 60 anos. Tantas bodas já comemoradas que só nos fazem querer mais e mais festas, mais e mais momentos com um dos dois casais (o outro são meu pai e minha mãe) que mais me inspiraram para as boas ações que pratiquei em meus dias. Orgulhosos pela família construída, meus avós querem apenas o melhor para os seus e estão sempre dispostos a cumprir o que desejam.

Certa vez, olhando uma fotografia ampliada de seus netos e bisnetos, meu avô afirmou confiante, como naquelas frases que não há alma capaz de duvidar: “Eu posso dizer que sou um homem rico por ter uma família assim”. Minha avó concordaria na mesma hora se estivesse presente naquele momento, porque as diferenças entre ambos apenas os unem ainda mais, como dois lados de uma mesma moeda; meu avô seria a “cara” e, de bom grado, deixaria a “coroa” para sua rainha, para a sua mulher.

Minha avó não é muito ligada nas palavras escritas, preferindo muito mais um bom papo pessoalmente ou ao telefone. Antes de minha mãe ser levada pelos anjos, lembro-me que as duas passavam horas e horas ao telefone, claro que era uma época em que as tarifas não eram tão caras. Mesmo esta crônica deverá ser lida em voz alta pelo meu avô, um empolgado em histórias e pela História. Ainda assim, sem ler muito, as afirmações da minha avó são tão incisivas que é difícil convencê-la do contrário.

Por outro lado, meu avô cede mais fácil, principalmente para os netos e bisnetos que ele ainda consegue segurar com as mãos de quem dirigiu muito caminhão e ergueu tantas paredes. Em sua seriedade para discutir política, história ou religião, está a inteligência que não se conquista apenas numa sala de aula. E sem terminar os estudos, meu avô tem mais sabedoria do que qualquer ex-presidente com doutorado nisso ou naquilo.

Porque gostamos tanto deles é que escrevemos estas palavras – no que me acompanham em sentimento toda a minha grande família. E tão grande como sempre serão meus avós, esta crônica não passará de um mínimo presente de Natal antecipado para Elias e Melida. Este dois, sim, a maior riqueza que alguém pode conquistar.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 23/12/2010.

Anúncios