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O que se deseja para o ano que vem, deve-se desejar para o dia que vem depois de hoje, e depois, e além. No final das contas, não há nada especial com o tal dia da virada. Qualquer dia de celebração – aniversário, finados, independência, etc – é tão somente especial se assim quisermos com que sejam. A conveniência das tradições muitas vezes inibe uma comemoração expandida porque condiciona certas ações às datas específicas, quando sabemos que até mesmo o calendário que seguimos é mutável. Que dizer, pois, das pessoas que nascem no dia 29 de fevereiro dos anos bissextos? Estas envelhecem mais devagar por que não têm como celebrar o próprio nascimento se não a cada quatro anos? Afinal, os acontecimentos não superam as suas próprias datas? Professores de história e historiadores estão muito mais interessados em compreender o tempo do que referenciá-lo com dias simbólicos. “Entender o passado em toda a sua complexidade é uma forma de adquirir sabedoria, humildade e um senso trágico a respeito da vida”, escreveu o historiador Gordon S. Wood. E completou: “Senso trágico não significa ser pessimista, mas apenas compreender a vida com todas as suas limitações”. Talvez, algumas pessoas não desejam para si a simples ideia de que há limite para tudo. Mas aceitar essas pequenas limitações é importante para ressaltar certos aspectos do dia a dia que surgem apenas em épocas ocasionais, como são os finais de ano. Não estou querendo aqui negar a relevância dos fogos de artifício, shows festivos gastos com dinheiro público, pulos e promessas lançadas no mar e outras atividades tão típicas para uma virada do ano. Pelo contrário, poderíamos, sim, viver o presente com o deslumbramento de cada alvorecer, cada pôr do sol, cada fase da lua. Na passagem de um ano para o outro, é comum fazer promessas com objetivos pessoais, quase como uma vaidade que aparece sempre no mesmo dia. E se deixássemos isso de fora, voltando nossas melhores ações para os outros, principalmente aqueles mais próximos de nós, conhecidos ou desconhecidos? Ganharíamos sobremaneira, não restam quaisquer dúvidas. Não, não é fácil admitir que muitos sonhos ficam perdidos pelo meio do caminho, tanto para gente comum quanto para os famosos, como o John Lennon que, ao final dos Beatles, afirmou que o sonho havia acabado. Porque também é da ordem universal das coisas ter um fim, assim como existe um final para o universo, um final para um ano, um final para uma crônica.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 30/12/2010.

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