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Quando o ano começa, surgem as inquietações de sempre lado a lado com as novas-velhas resoluções, como iniciar o regime alimentar ou terminar aquele livro que ficou na estante. Desejos e ações também aparecem com algum vigor inicial, feito a esperança que, dizem, é a última a nos deixar. Como os dias e os meses estão de volta ao ponto de origem, é inevitável pensar que tudo assim nos parece como se fosse a primeira vez.

Quando o ano começa, nada é mais prático do que esquecer as inflamações da alma, transformando o corpo em inexplorada plataforma de ideias e atividades. Porque quem se mantém parado é estátua, e quem vive de passado é museu – e, muitas vezes, ambos estão juntos. Quem inventou o tempo certamente era um desocupado, dirá um ou outro mais irritado. E as horas do novo ano poderão ser gastas ao bel-prazer.

Quando o ano começa, muitos apontam suas canetas, facas ou enxadas para o futuro. E as ferramentas de trabalho tendem a buscar o sucesso profissional, porque o homem contemporâneo necessariamente é aquilo que faz. Até que chegue o momento no qual as máquinas farão qualquer serviço que requeira esforço físico – uma meta-sociedade –, os seres humanos ainda serão classificados por suas funções e assim nortearão suas aspirações.

Quando o ano começa, algumas explicações passam a ter mais sentido, porque a experiência municia a todos com um maior poder de observação. E a lógica, que se pensava deste ou daquele jeito, será transformada em pensamento pueril, fumaça que se dissipa no vento forte de uma tempestade de ideias. As emoções, pois, preenchem as lacunas dos dias e nada mais será como antes.

Quando o ano começa, outras pessoas aparecem pelo caminho. E os convivas de ocasião passam a integrar a história singular que só pode ser sentida através de um único cérebro. Aceitar o universo é também aceitar a individualidade dos fatos e a inevitabilidade da vida. E é através do outro que os novos tempos parecem mais ou menos agradáveis, mais ou menos compreensíveis, mais ou menos verdadeiros.

Quando o ano começa, é preciso jogar o lixo no lugar certo, reciclando os gestos humanos e aproximando uns e outros do que realmente importa.

Cada qual saberá de si neste ano que inicia e poderá finalmente perceber que quando o ano começa nada será tão igual ou diferente quanto em qualquer outro dia. E tal percepção não será problema algum se o indivíduo também perceber que este é o maior presente que o novo ano poderá lhe oferecer.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 06/01/2011.

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