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Aqueles que se esbaldam no lazer que o verão oferece, sabem que nesta época do ano, para nós que vivemos abaixo dos trópicos, os dias tendem a terminar com chuva ou com chopp. O calor que chega e demora a ir embora impõem aos dias uma necessidade refrescante, como quem clama pelo arrebatador vento sul.

As praias se enchem de conversas e corpos; a areia fica repleta de sabores e suor; os bares à beira mar não sabem o que fazer com tantas filas e fome. Desde a manhã até os últimos raios de sol, quem está de férias busca o refúgio na multidão, seja de uma piscina de hotel ou no vaivém das ondas desse litoral praieiro qual existe na Ilha.

Os habitantes que conhecem esse lugar e o tem em conta como a um velho amigo já sabem que sua cidade é de todos e mais um bocado de gente nesses dias da estação quente. E, assim, muitos não esquentam mais a cabeça com o trânsito doidivanas que se agita ainda mais com placas de veículos de outros estados e países. Quem perde a cabeça, dirá o ilhéu descolado, é francês na revolução. Quiçá o bom humor ainda tenha o seu valor nos dias que se seguem nessa metrópole cercada de mar.

Na poluição das águas em suas duas baías, Florianópolis não consegue esconder dos turistas os seus pecados. A Ilha é como a Eva primeira, mas que não quer a maçã e a joga em qualquer canto sujando o templo sagrado chamado natureza. Desconfio até que o éden ficava em algum lugar entre a Tapera e a Costeira, quando o mundo ainda se chamava Gaia e os continentes ainda não haviam se separado – o que nos leva a crer que, um dia, a água que banha este pedacinho de terra era doce, feito caldo de cana que se bebe no Mercado Público.

O tempo é sempre bom, mas chove porque a natureza sabe que é preciso. Chamaremos de benfeitor o alcaide que, um dia, determinar que todos devem captar a água da chuva para os fins de sobrevivência e embelezamento. Assim, teremos preservado nossa espécie e utilizaremos a disposição para cultivar árvores frutíferas e plantas decorativas, devolvendo ao meio ambiente um pouco do presente que recebemos e com o qual passamos em comunhão por todas as estações (inclusive esta de dias e noites acaloradas).

E a chuva que abraça já não será mais de lágrimas da Terra desiludida com sua espécie mais orgulhosa. Envilecida, a humanidade pode não querer ser salva, mas luta com todas as suas forças para ter o melhor para si. Assim também ocorre nesta Ilha, de picuinhas e vaidades estúpidas – mas, no verão, quando os corpos nas praias trajam apenas sungas e biquínis, todos são iguais e fazem parte dessa festa promovida pela deusa Gaia.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 20/01/2011.

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