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Em Biguaçu tudo pode ser diferente do que é, porque a história de uma cidade não se resume unicamente àquilo que contam os livros, com datas e personalidades cobrindo páginas e páginas de um ideal positivista felizmente ultrapassado. Pelo contrário, Biguaçu é ainda mais e sempre mais quando levamos em conta tudo aquilo que fica sem registro, mas que permanece apenas como ideia, sensação ou poesia.

Sentir Biguaçu é aceitar um gosto de surpresa, pois o novo e o velho estão entranhados nas características que destacam a cidade nesse mundo que se quer cada vez mais sem fronteiras. O Universo paralelo ao qual podemos observar quando estamos nesta terra, tem seu eixo fixado na Praça Nereu Ramos, preservando aquela famosa tradição das antigas vilas, quando as casas e tudo o mais era erguido ao redor de uma praça primeira.

A parte litorânea de Biguaçu traz consigo as intenções turísticas e uma percepção nostálgica, qualquer coisa que nos remete ao bucolismo das cidades pequenas até o princípio do século XX. A BR 101, que corta o município feito uma faca afiada, como que tenta dividir dois lados de uma mesma face, mas provoca no máximo uma pequena cicatriz, não tanto pelo asfalto que volta e meia precisa de reparos, mas sim pela imprudência de motoristas que se acabam ou acabam com vidas alheias nas curvas e retas daquele via mais brasileira entre as vias brasileiras.

O morador de Biguaçu, seja ele do campo ou da parte urbana, quer para si a cidade definitiva que não precisa de mudanças drásticas, mas de ajustes conceituais, porque muito mais difícil que alterar a natureza é transformar mentes fechadas em mentes livres. Aquelas picuinhas e mesquinharias perdem o lugar para os desejos de sucesso sem excesso, de lucro sem exploração, de desenvolvimento sem destruição.

Os que passam diariamente por Biguaçu, mas não dormem na sua companhia, têm anseios quais os nativos, porque uma cidade legítima sempre será um convite aberto e franco. É necessário conhecer muito mais que o centro histórico, onde o Casarão Born tenta roubar todas as atenções para si. Também é preciso ir além dos recortes do litoral que presenteia anualmente os veranistas com suas praias singulares. Conhecer Biguaçu é, também, conhecer sua gente; ouvir as histórias do Bom Viver, da Sorocaba, da Estiva, de São Miguel, de todos os lugares onde exista alguém disposto a dividir suas memórias, relatando causos daqueles que já passaram por estas bandas, imprimindo no ar as palavras do passado e do presente, deixando em cada pessoa uma vontade de querer mais.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 10/02/2011.

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