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Ela traz estampada no nome a certeza da fé mesmo para os descrentes: assim é São José, a cidade que as pessoas aprenderam a entender. Não há virtude em demasia, tampouco os vícios são exagerados, pois a cidade aceita de bom grado o meio termo, como se ponderação estivesse implícita na sua localização mais do que estratégica. Os limites da cidade são apenas fictícios; ao mesmo tempo em que o território é definido feito o tempo, sabemos que as horas de São José ultrapassam os espaços físicos, alterando teorias científicas, propiciando o vaivém dos que ali vivem e daqueles que lá visitam.

Assim com a Ilha de Santa Catarina, São José é banhada pelas ondas das baías norte e sul, ainda que durante muito tempo seus cidadãos tenham virado as costas para o mar. Mas a sua própria natureza, distribuída entre planícies e morros, sempre recebeu gentilmente as águas do oceano.

Mesmo quando perdeu parte de suas terras para a capital do estado, no princípio da década de 1940, São José guardou para si os segredos da sua gente. E os pescadores, comerciantes, empresários e outros mais fizeram do município aquilo tudo que já sabemos, para o bem e para o mal, pois existe sim uma confusão necessária à cidade, qual um dispositivo imprescindível ao modus operandi josefense. Perceber essa alteração da ordem é outra forma de abraçar o diferente, elemento que destaca a cidade entre as demais, função social que se diverte com as dicotomias do presente.

São José, a entidade, como que abençoa os seus moradores divididos por andares numa selva cada vez mais de pedra. No andar de cima, o jovem casal apronta algumas no quarto. No andar de baixo, a filha adolescente discute com os pais para ir numa boate no Kobrasol. Já o apartamento ao lado está vazio, esperando algum inquilino assumir os riscos e os benefícios do dia a dia na urbe, pois não se enganem, cidadãs e cidadãos deste lugar de terra firme: São José é, sim, um mundo de opostos, planeta transitório e intransitivo no verbo-galáxia da grande metrópole litorânea.

Uma crônica por dia se desenrola em cada esquina de São José, matéria prima a ser lapidada, mas que se quer bruta justamente para manter os aspectos que lhe definem. Uma cidade se faz de engrenagens múltiplas, de circunstâncias definidas pelo destino ou decididas espontaneamente; livre arbítrio urbano ou fado citadino? Tanto faz, desde que permaneçam a fé que ultrapassa as religiões e um respeito mútuo entre todos aqueles que desejam o melhor para a sagrada São José.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 17/02/2011.

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