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Findo o horário de verão, pelo menos nesta parte cá do país, fica a sensação de que os dias voltam a ser mais curtos e quem sai ganhando é a noite com seu manto escuro. Os dias quentes, porém, ainda continuam feito aquela visita que não se manca do excesso! E então, admitimos, eu e mais uns: todos os dias deveriam ser brandos, gentis e, até mesmo, um tanto frios.

Que permaneça, pois, unicamente o calor humano, coisa subjetiva que nos acompanha por todas as estações do ano, a todos os momentos, quando estamos usando guarda-chuva ou guarda-sol; e tudo seria tão impressionante quanto possível. Logo, ficaríamos espantados com os mísseis de paz e as bombas de chocolate. Não acreditamos, eu e mais uns, que sejam imprescindíveis as altas temperaturas para os dias alegres, de sorriso constante e de beleza sincera. Porque os corpos semi-desnudos nas praias podem tranquilamente dar lugar aos cachecóis e sobretudos sem que ninguém perca de vista o âmago da sexualidade. Aprendemos a identificar as formas desde muito cedo, mas quando adultos, percebemos que existem inúmeras nuanças no que concerne ao corpo humano.

Parece mesmo curioso que homens não se importem com as luzes acesas, enquanto as mulheres as querem apagadas. Evidentemente, toda regra tem sua exceção e, para falar a verdade, talvez esta máxima, que teima em colocar machos e fêmeas em grupos (como no reino animal, ao qual, saliente-se, todos fazemos parte), já não seja assim tão atual. O bom e velho calor humano pode confundir os segmentos sociais, porque no final das contas a mente não resiste a certos impulsos de origem químico-sensorial.

Quando adolescente, fui amigo de uma garota que acreditava no amor apenas como reação química produzida pelo cérebro com a ajuda de outras partes sensíveis do corpo. Dizia ela que, após certo tempo, o amor-paixão perdia a força e restava o amor-amizade, aquele no qual o respeito supera os desejos mais ardentes. Apesar de ser um tanto quanto desanimadora, a visão da garota possuía argumentos fortes, urdidos sob as relações contemporâneas de casamentos que duram menos de uma estação, namoros que se acabam no mesmo dia (donde surgiu o verbo “ficar”) e uma fragilização absurda do conceito clássico de “família”. O calor humano, então, virou raridade e, por vezes, objeto de consumo dos saudosistas.

Lá se vai o horário de verão, mas o verão permanece porque não se prende ao tempo. Enquanto tudo ainda é quente, façamos um brinde gelado ao frio e que este venha logo trazendo consigo o calor mais desejado pela humanidade.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 24/02/2011.

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