Tags

, ,


Ela o conheceu num fim de tarde rosé como o vinho, em Santo Antônio de Lisboa. Uma brisa quente, mas não desesperadora, vinha do mar e adulava a terra com seu jeito moleque. Quando os dois se viram pela primeira vez, ela já estava acompanhando os passos dele há alguns minutos, seguindo-o por entre barraquinhas de artesanato e outras de comes e bebes. Foi quando ele pediu um crepe que tudo aconteceu:

– Oi, estava pensando numa coisa interessante.

Assim que ela terminou aquela frase, dezenas de pensamentos passaram pela cabeça dele. Imaginara se a conhecera em outra viagem, ou se era parente de algum amigo, ou mesmo se saíram juntos em alguma circunstância na qual o excesso de bebida causara perda de memória recente. Sem querer saber se sofria de amnésia ou não, entrou na conversa:

– Vamos compartilhar esse seu pensamento e, se o interesse for, prometo que lhe pago um crepe.

Papearam por longos minutos, pediram cada um mais dois crepes e tomaram algumas taças de vinho rosé. “E eu que estava para começar o regime”, ela disse em algum momento. Ele contou que estava de passagem na Ilha. Morava no Rio de Janeiro e, uma vez por mês, visitava a mãe que vivia ali pertinho daquelas barracas. “Logo notei o sotaque carioca”, ela comentou quando estavam por trocar os números dos telefones. Mas ela também relatou um pouco da sua ainda jovem vida. Cursava letras-alemão na Universidade Federal e, tão logo estivesse formada, pensava em deixar a Ilha para conhecer a Europa.

A noite chegou cedo, porque já não mais estavam naquele horário de verão que sempre incomoda uns e outros no início do ano. Pelo celular, as mensagens de ambos traziam alguns indícios curiosos do rumo daquela noite. “Te pego entre 8 ou 9 horas?”. “Pode ser 8:30, já estou quase pronta!”. “Ok, mas vamos ter que ir naquele primeiro restaurante depois da praia, pois não trouxe roupa social na mala.”. “Não esquenta! Estarei também de vestido bem simples, em tom rosé como o vinho!”. Ele achou curiosa aquela expressão: rosé como o vinho. Lembrara-se vagamente de ter pensado que conhecera alguém num fim de tarde rosé como o vinho, em Santo Antônio de Lisboa.

De bermuda jeans e uma camisa florida, saiu caminhando pela areia da praia até o local do encontro. Estava um pouco tonto, como se fosse o resultado de um passeio num barco inconstante. Não era enjôo, mas aquela mesma sensação de típica ressaca voltara a lhe causar o incômodo merecido.

Quando chegou ao bar, esperou pela jovem que jamais veio ao seu encontro. E não havia mensagem alguma no telefone e já não se lembrava mais se conhecera mesmo alguém ou tudo era fruto da bebida. Sozinho, pediu outra garrafa de vinho rosé como a cor de um vestido que ele jamais viu.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 03/03/2011.

Anúncios