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Ele está sentado ao lado da mesma mulher que encontrou diversas vezes no passado. Jamais trocaram um olhar mais íntimo ou um gesto mais elaborado. Ainda assim, insistiam no que era mais subjetivo e insensato. O livro de capa preta que sempre o acompanhava também estava lá, ao seu lado, sobre o banco na Praça XV de Novembro, em Florianópolis, lugar de esquecer as veleidades e de ser lembrado por quem se quer.

Olhos nos olhos: um encara o outro profundamente. Há uma rosa no chão, como se este pequeno detalhe pudesse mover o mundo e modificar a história humana.

A mulher o percebe e, sem saber o que se passa naquela mente perturbada com a sua insinuante presença, diz-lhe ao ouvido:

– Tenho fases, como a lua / Fases de andar escondida, / fases de vir para a rua… / Perdição da minha vida! / Perdição da vida minha! / Tenho fases de ser tua, / tenho outras de ser sozinha / Fases que vão e que vêm, / no secreto calendário / que um astrólogo arbitrário / inventou para meu uso. / E roda a melancolia / seu interminável fuso! / Não me encontro com ninguém / (tenho fases, como a lua…) / No dia de alguém ser meu / não é dia de eu ser sua… / E, quando chega esse dia, / o outro desapareceu…

“São versos de Cecília Meirelles”, ele lembra enquanto praticamente todo seu corpo está em choque. Ao se levantar para encará-la na mesma altura, a flor cai novamente no chão – como aconteceu em todas as vezes anteriores.

E ele diz, dessa vez com versos de Casimiro de Abreu:

– Há dores fundas, agonias lentas, / dramas pungentes que ninguém consola, ou suspeita sequer! / Mágoas maiores que a dor dum dia, / do que a morte bebida em taça morna / dos lábios de mulher.

Bate um vento gelado. Ela puxa um cigarro não se sabe de onde e ele o acenda com seu isqueiro vermelho, última das lembranças de sua ex-mulher.

“Estou sentindo uma forte fragrância de amônia. Mas é boa. Sim, é ótima. É um cheiro de amônia, um cheiro de amor. Amônia, amor”, ele pensa enquanto ela beija sutilmente seus lábios.

E, após o beijo, ela revela:

– Eu a voz que está na sua cabeça! A voz da sua mente.

Ela o beija suavemente e sai. Ele pega no braço dela e entrega o livro de capa preta junto com a flor que jazia no chão, mas ele o acalma:

– Fique com tudo. Eu não preciso mais. Escrevi estas poesias há muito tempo, já não são minhas tais. Você as tomou de mim.

Ela se vai enquanto ele chora em silêncio: a lágrima desce suave em seu rosto, secando com o vento sul que invade a Ilha.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 07/04/2011.

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