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O Índio acordou cedo, quando os primeiros raios de sol entraram pela janela do seu quarto. Sim, o Índio vivia numa casa, simples, todavia era suficiente para ele, sua mulher e seus dois filhos. Vestiu sua roupa, uma calça jeans velha e desbotada, e em seguida foi até a cozinha tomar café da manhã. As crianças não paravam de correr e pular ao redor da mesa; “parem a brincadeira e venham tomar café”, disse a mulher à mesa. O Índio, com sua cara feia de sempre, esbravejou um grito e as crianças, num piscar de olhos, foram para os seus devidos lugares.

Todos tomaram o café da manhã e o Índio pegou o seu carro em direção ao trabalho. “Mais um dia igual ao anterior”, pensava o Índio enquanto guiava pelas ruas movimentadas daquela metrópole. Chegou ao serviço e dirigiu-se para a sua sala. O dia estava apenas começando. Trabalho, trabalho e trabalho: foi o que ele fez durante toda a manhã.

Quando todos saíram para almoçar, o Índio permaneceu trabalhando e, quase sem querer, acabou pegando no sono. Dormiu e sonhou. O sonho era uma mistura de recordações da época em que era apenas uma criança, um pequeno índio. As imagens daquela época voavam entre lembranças de pessoas e amizades já quase esquecidas. Lembrava ainda de quando corria nu pela floresta, algumas vezes caçando animais reais, outras procurando seres imaginários. “Ah, que saudades daqueles tempos…”.

O contato com a natureza e a vida livre de preocupações eram as coisas das quais o Índio mais sentia falta. No seu íntimo, gostaria que seus filhos tivessem a infância que ele teve, mas também não seria injustiça privá-los de conhecer esse imenso mundo que os cerca? Mas para que viver num mundo de doenças, fome, miséria e violência?

Tum! Tum! A porta da sua sala se abriu e ele acordou. O horário de almoço terminara e o Índio sabia que ainda lhe restava toda a tarde de trabalho…

Quando chegou em casa, ao anoitecer, teve uma conversa com a mulher sobre o sonho que tivera na sua sala.

A mulher sorriu e pediu-lhe que esquecesse aquilo, afinal era passado, e o que passou não volta mais. Mas o Índio não esqueceu. E continuou pensando nas vantagens e desvantagens de sua vida. Pensou no que poderia fazer se ainda vivesse como na sua infância.

“Ainda sou Índio?”, essa frase surgiu na sua mente e ele indagou a si mesmo sobre sua vida. Deitou no sofá da sala e ainda pensou uma última coisa. “Oras, apesar de tudo eu tenho a minha vida”. O Índio ligou a televisão e viu a sua novela preferida, como fazia todos os dias…

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 14/04/2011.

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