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No final das contas, tudo o que escrevemos tem a ver com nossa experiência individual para com as coisas mundanas. Impossível, até o momento, dissociar autor de sua obra, seja um romance ou uma crônica. Assim, faço desse texto uma insistente busca por uma identidade legítima ou, ao menos, uma tentativa de expandir o entendimento do que me é familiar.

E, por familiar, entenda-se, neste caso, um sentido de parentesco, laços de família que se aprofundam com os anos e, então, culminam num abraço ou na certeza de contar com o outro. Assim, creio que não me seja complicado pôr no papel umas mal traçadas sobre meu pai.

Nascido Manoel João (dizem que por erro de cartório) era para ter sido João Manoel. Os pais e os irmãos acabaram apelidando-o com aquele diminutivo que fica tão bem nas crianças e eis que surgiu Joãozinho. Lageano de nascimento, cresceu nos campos da Serra, morando também em Bom Retiro e, quando adulto, dividido entre Florianópolis e São José, onde mora ainda agora. Mas os lugares são coisas que só ganham uma dimensão mais precisa e sensata através das pessoas, e meu pai sempre foi indelevelmente nobre por onde passou. É uma daquelas pessoas nas quais as qualidades aparecem antes das outras características.

Se herdei um gosto desmedido pela música, coube a meu pai boa parte da responsabilidade. Com sua gaita de mão – ou acordeão ou sanfona –, as canções vinham com a naturalidade típica da música de raiz (porque da terra): histórias da vida no campo ou através das estradas, mostrando tudo o que existe de mais humano nas diferenças e semelhanças entre o interior e a cidade grande. Entrementes, a cada festa de família, revivemos as venturas e desventuras do Chico Mineiro e de seu irmão, do amigo boiadeiro e do Menino da Porteira, do José Santana e da sua Casinha de Aço.

Quando está no trabalho, o lado profissional aparece de forma tão responsável quanto em qualquer outro lugar. De ânimo apaziguador, soube como poucos a diferença entre estar certo e fazer o certo. Lembro que um dos seus colegas de trabalho costumava chamá-lo de Seu Maneca, como se soubesse que por trás daquela aparente seriedade está alguém que sabe rir da vida e com ela.

Seu Maneca também traz a confiança estampada no rosto, algo que lhe é tão marcante quanto o bigode sempre muito bem aparado, obrigado. Hoje, chamam-lhe de outra forma. Desde o nascimento de sua neta, Manoel João tornou-se “Vô João”, aquele porto seguro de toda a família, aquele pai a quem esta crônica e este cronista devem suas existências.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 28/04/2011.

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