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Foram aquelas flores que a denunciaram naquele que parecia ser um crime perfeito. Quando ele chegou, trazendo um presente embrulhado num pacote amarelo, ela o esperava através das frias grades negras de sua cela, à espera de um perdão, de uma justiça que lhe seria impiedosa, mas inevitável.

Pouco tempo antes, Ariana estava naquela cena claudicante, ir-e-vir que não se completa, mas cuja iminência de um clímax corrompe o tempo e o espaço, satisfazendo uma vontade indômita que a deixa tão perplexa quanto extasiada. Assim, estava diante daquela obra em amarelo, traço histórico de uma natureza viva e vívida nas cores traçadas há tantos anos por um pintor que decepara a própria orelha, ainda que tal informação não tenha qualquer importância neste caso. Com um olhar cheio de desejo, os lábios superiores roçando os inferiores, a respiração quase ofegante no momento do furto. E uma das obras mais conhecidas do holandês Vincent van Gogh se foi com a leveza de Ariana, gata ágil com mãos velozes e um jeito meio malandra, meio moleca, meio menina.

Muito tempo antes disso tudo, Ariana e Arthur encontraram-se numa vernissage; algo tão incomum para ele que nunca se recordara ao certo quem lhe enviara o convite para aquele evento. Sem muitas ambições profissionais e com pouco mais de 30 anos, não demorou muito a se encantar pela sensualidade loura de Ariana. E como ela entendia de arte! E quão dramática ela se fazia parecer! Falava dos pintores renascentistas, dos pioneiros greco-romanos e dos modernos contemporâneos com a mesma desenvoltura com que caminhava sobre as sandálias de salto alto.

A história de um casal tem momentos curiosos, como quando na segunda vez em que se encontraram, com os vasos ornando os jardins suspensos de uma Babilônia em miniatura num bar do Centro. Ele comentou alguma coisa sobre sensações florais e ela sorriu como se tivesse acabado de ouvir uma piada. E foi naquele momento em que Arthur caiu de amores por Ariana.

E agora, exatamente neste instante, ele deixa o pacote amarelo nas mãos dela; e não trocam beijos ou abraços, mas apenas um olhar inconsolável, circunstância típica de crime e castigo. A polícia a encontrou através dos vestígios digitais deixados nas pétalas das flores no hall de entrada daquele museu em Munique: ela havia parado para sentir o perfume e, claro, descuidou-se.

Ariana abriu o presente e encontrou doze girassóis numa jarra: imagem tão igual àquela do quadro que ela furtara, porque ele tinha de dizer o quanto a amaria, mesmo que tudo estivesse acabado.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 05/05/2011.

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