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O disco de vinil rodopiava sobre o seu próprio eixo cingido por uma agulha fina. Uma canção de jazz antiga vazava os cantos do escritório no qual se encontrava. Vez por outra, numa síncope qualquer alguma ranhura desritmava a gravação, porque nesse tempo encontrar um vinil usado sem arranhões é qualquer coisa semi-preciosa. A voz rouca sobre o compasso lento tragava o ambiente, condensando as emoções vividas em agradável torpor. Quanta vazão apreendida de memórias e ideias pouco contempladas!

Quando o lado A terminou, ia virar o disco, mas a campainha do interfone o impediu. Estou subindo para assistirmos ao jogo, disse a voz então reconhecida como pertencente a sua namorada. E o jazzista não compreendeu de imediato o significado daquela sentença. De que jogo se tratava? E, mais importante: Por que ela tinha tanta certeza de que ambos veriam ao jogo juntos? Mesmo sua contrariedade já era evidente pela visita sem aviso prévio. Como solteiro, reservava-se ao direito de ter horários distribuídos como bem entendesse. E já bastava ter de bater o cartão de ponto todos os dias no pertubador trabalho da bolsa de valores.

Abriu a porta por formalidade, não por gentileza. Sua namorada já era próxima o suficiente para entender suas manias e certos praxes da relação. No entanto, contrariando todas as disposições em contrário, estava ali feito uma invasora, intencionando dividir o indivisável ou mudar o imutável. Milagres acontecem, dizia-lhe entre atos. Após um ligeiro beijo nos lábios, ela foi para o sofá e não tardou a ligar a televisão. Quando ele balbuciava uma perguntas, ela o interrompeu.

– Copa do Mundo!

A voz dela saíra em tom reprovador, como quem diz uma verdade que sob hipótese alguma deve ser questionada. E explicou, informou, orientou, ressaltou, afirmou que toda relação que ultrapassa quatro anos vai, em algum momento, passar por uma Copa do Mundo de Futebol. O jazzista escutou tudo com parcimônia e elegância, mais por gentileza que por formalidade.

Aceitou assistir ao futebol pois o amor é terrível porque não possui regras. O lado B teria que esperar.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 17/06/2010.

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