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A televisão estava ligada desde a noite anterior. O sol da manhã atravessou as venezianas do quarto de Henrique, que dormia com a mesma roupa da festa passada. Todos os professores do curso de História da Universidade Federal de Santa Catarina fizeram uma confraternização antes do primeiro dia do semestre letivo. São festas como essa que, ao invés de colaborar com a amizade no corpo docente, provocam intrigas e constrangimento ao longo do semestre.

Aquela professora divorciada de História Antiga exagerou no vinho como se estivesse naqueles banquetes homéricos que os gregos faziam outrora. Já o professor de História Moderna tentou a sorte com uma garçonete muito mais jovem e quase terminou levando um soco do namorado que a esperava à saída.

Henrique, como sempre, despertava a curiosidade das professoras recém contratadas. Aos 34 anos, trazia consigo um ar inteligente, mas nunca aparentava ser um desses chatos intelectuais que fazem a má fama do meio acadêmico. Tinha o rosto fino, uma beleza requintada forjada pelos olhos azuis e o cabelo escuro como a noite. Era uma pessoa interessante, tanto pelo que dizia, quanto pelas frases que jamais proferia em excesso. Na festa, divertiu-se na medida em que conseguia deixar de lado o fato de não haver preparado nada para a primeira aula do dia seguinte. A responsabilidade, dizem aqueles que o conhecem, é uma de suas características mais visíveis. Recebeu uma ou duas cantadas durante a noite. Na primeira, achou que a loura de cochas grossas e decote em V gigante estivesse querendo apenas uma ajuda com a bebida. Da segunda vez, a novata simplesmente o beijou demoradamente pouco antes de cair num canto entregue à bebida. Desta segunda cantada (pelo menos fora assim que Henrique entendera o ato), resultara a sua noite mal dormida. Tivera que levar a moça do beijo com gosto de Cabernet para casa, posto que a mesma não estivesse em condições de sequer se levantar. Ela morava com a mãe, que aceitou um tanto a contragosto as explicações de Henrique.

– Boa noite, senhora. Eu sou professor de História do Brasil e vim trazer sua filha que teve, hã, algum problema com o coquetel servido durante a noite de hoje.

Henrique não queria ser tão explícito e dizer que a filha daquela mulher de pijama, que atendera a campainha de pijama xadrez, tomara um porre como há muito não vira. Enfim, deitou-a no sofá e despediu-se deixando o telefone, caso precisassem de algo.

E fora dormir duas horas antes do horário no qual costumeiramente acordava. A história, de fato, estava apenas por começar.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 30/06/2011.

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