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Um não-fumante compra três cigarros avulsos. Ele os usa de modo peculiar; guardando-os no bolso para ter uma leve sensação de liberdade num mundo-presídio. O cheiro não lhe agrada. As doenças que o cigarro provoca lhe causam repúdio. Ainda assim, navega solitário numa maré de fumaça que nem chega a existir. E quando acorda, no outro dia pela manhã agridoce, a camisa amassada, a massa corporal como estivesse renascendo.

Este mesmo sujeito é um de nós. É aquele que presenciou o impeachment do Collor e que, anos mais tarde, viu aquele que prometera caçar marajás ser absolvido. A política partidária lhe provoca ânsia. E cospe no prato que comeu; afinal, sempre votava na legenda.

Mentiras probas ou verdades aleivosas são inequívocos pontos de vista. Ou não, se seguirmos à risca a sentença anterior. O que convém esclarecer, porém, é o tipo de história que nos é contada. Por um motivo ou outro, cada acontecimento urbano da capital de Santa Catarina é envolvido por uma nuvem de filme noir, quase uma neblina, quase como aquela fumaça do cigarro do não fumante.

O cidadão em questão passa por uma banca de revistas, na qual um jornal balançando com o vento sul da Ilha informa que houve troca de ministros no Governo Federal. E ele diz consigo: “O Brasil está cansado de ministros, o país quer agora menestréis!”

Na arte de governar – seria a oitava, vindo logo após o cinema? –, as reformas ministeriais são elementos sempre presentes no sistema presidencialista. Como convém ao comandante-mor, aquele cidadão que se difere dos demais por carregar uma faixa verde-amarela durante pelo menos quatro anos, a troca de ministros é parte da dita democracia que prega o lema “é errando que se aprende”. E quem mesmo aprende?

Com toda simpatia que nunca teve, o homem abre o livro Poesia Digesta e dá de cara com os versos do Soneto Proibido de Glauco Matoso: “Tabus são mui comuns em todo o mundo. / Na China não se pode ter irmão. / Em Cuba, ser de esquerda é obrigação / e, nos States, nada está em segundo”.

Mas o não-fumante desiste de compreender a si mesmo, aos outros ou às estrelas que já se extinguiram há milhares de anos, mas que ainda repercutem com sua luminosidade pelo cosmos. E talvez esta seja a melhor (ou a pior) metáfora para essa pantomima blasé chamada política: o que foi, ainda será por um longo tempo…

Feito um epílogo, o não-fumante parte caminhando solitário. De longe, conseguimos notar que ele acende o cigarro, mas não enxergamos se ele o coloca na boca, contrariando suas ideias e afirmando sua humanidade.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 21/07/2011.

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