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Os ares provincianos e distantes do agito ainda não se dissiparam totalmente da Ilha. E podemos conferir tais características nos textos dos cronistas Flávio José Cardozo e Jair Francisco Hamms.

Ao ver um pequeno alvoroço no centro da cidade, Flávio fala que nada acontece naquela Ilha porque a “terrinha ainda é toda remanso“. E assim afirma: “Me aproximo, tocado pela curiosidade jornalística que mora em todos nós, cidadãos da Ilha. É manhã de sábado, e nenhum sujeito saudável há de vir à cidade nas manhãs de sábado apenas para comprar peixe, carne de churrasco. (…) vem principalmente para ver se de alguma esquina dispara afinal uma novidade qualquer que acabe com essa placidez da semana que morre”.

Flávio também narra as dificuldades que encontra para andar 40 minutos diários, recomendado por médicos. Segundo o cronista, é difícil não se distrair com o lugar em que mora, Santo Antônio de Lisboa, e com a gente dali. Eis o lugar bucólico aos olhos do cronista: “Um cheiro de mato misturado aos cheiros do mar. Ao fundo, rente ao morro, o ronco dos carros, que se abranda ao atravessar espinheiros e cajuzais. E mugidos de vaca. Gosto imensamente deles, dos mugidos de vaca batendo quentes, algo nostálgicos, no rugido áspero dos automóveis lá longe”.

Assim como Flávio, Jair Francisco Hamms também mora numa praia: a Armação. O lugar é de pouco movimento se comparado às praias agitadas como Canasvieiras, Ingleses ou Joaquina. E os causos de Hamms também são muitos: “O meu amalucado amigo Zé Flores telefona lá de Roseira, no Paraná, às seis da manhã, e me arranca da cama só para saber o que eu tenho feito, de férias aqui na Armação. Aos bocejos, respondo que ‘por não ser muito chegado a praias, o que mais faço é cozinhar e especular a vida alheia”. Cabe apenas ressaltar que “a vida alheia” citada pelo cronista é não mais que a vida das flores.

Muitos dos florianopolitanos gostam de criar curiós em casa para exibi-los na rua. Jair fez do personagem Domingos na crônica “Domingos do Domingos”, um destes, com seu linguajar bem coloquial: “- Mo curió, homi. Nomi dele é Artur. Nomi do mo fio, qui faleceu. Faleceu tem vinte anos já. No dia qui morreu este qui tá qui nasceu. Descascou o ovinho, abriu o biquinho, uma lindeza. Bote logo u nomi di Artur”.

As crônicas de Jair e Flávio trazem personagens que revelam o cotidiano da nossa cidade que, se não é mais o mesmo, ainda guarda em si mesmo muitas das suas principais particularidades que singularizam esse pedacinho de terra chamado Florianópolis.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 18/08/2011.

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