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Para ser sincero, sempre revelamos algumas verdades ou veleidades quando nos deparamos com as nossas lembranças e a nossa impressão do presente. Veja só o caso quando temos a Ilha por contraste de suas épocas. Mesmo sendo nostalgia adolescente, volta e meia parece que a cidade teve seus dias de inocência como aquele senhor do filme Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman.

Como disse, pode ser mesmo um sentimento banal, ainda que sentimentos e banalidades sejam antagônicos mesmo que complementares. Porque se o médico Isak Borg, personagem do filme de Bergman, depara-se com o passado ao lembrar dos morangos silvestres que lhe eram familiares na juventude, também temos o privilégio de olhar nossa cidade com aquela esperança boba de que o futuro será diferente do que foi. Encontramo-nos na mesma viagem de Borg, visitando lugares cujas reminiscências são tão inevitáveis quanto o suave sabor de um morango silvestre.

Nesse passeio que se realiza em cada recordação, entendemos coisas que outrora não faziam sentido e nos esquecemos das peças que não se encaixavam naquele quebra-cabeça social. Com a Ilha, também muito ficou por ser feito e, na mesma medida, outros tantos desagrados emergiram feito aquelas embarcações que naufragaram nos seus arredores. Entretanto, os piratas desse recente passado utilizam armadilhas mais sutis – mas nem por isso menos agressivas – para agarrar seus tesouros. O que acontece nesse paraíso destruído é trocar o verde pelo cinza, inverter a beleza disforme da natureza pela palidez ordenada do caos. Como não ver ordem nas filas do trânsito, na sequência de desmandos públicos, na mania de grandeza que essa gente pequena tem? É tanta ordem que a bagunça chega a ser risível e previsível.

Quando Isak Borg acha ridícula a honraria acadêmica que está prestes a receber, ainda assim ele continua com as formalidades, assumindo um tantinho para si a culpa e a responsabilidade de boa parte do que já não mais existe. E, com a companhia de sua nora Marianne, o médico percebe que ainda há tempo, mesmo que as mudanças vindouras sejam sutis, mesmo que o mundo ao redor também relute em ceder.

Com Florianópolis por companheira, parece que alguma coisa está para acontecer. Novamente os morangos silvestres vêm à tona e temos uma outra oportunidade para saboreá-los.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 08/09/2011.

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