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Tudo começa numa noite esfumaçada. Poderia ser o resquício de uma fogueira de uma festa junina, mas já estamos em Setembro. Estranhamente, contra todas as indicações da Polícia Civil, a mulher – que já namorou um sargento quando morava no interior – caminha sozinha ali pelo final da Rua Conselheiro Mafra. A cada esquina, uma loja fechada e uma angústia a anunciar o vilão que ainda não se apresenta em cena. Há uma trilha perturbadora no fundo, pois alguma moradora esquecera ligado o toca-discos, deixando ecoar pela noite fria uma sinfonia triste, música sacra com ar profano. Um gato pardo (pois nas horas noturnas todos os gatos assim o são) observa tudo qual gerente de boate à entrada do estabelecimento. Por vezes, ainda escuta ao longe o caminhão do lixo recolhendo os restos do dia ou, mais próximo, o som de uma janela que não foi fechada corretamente numa repartição pública. Tudo é estranho e parece ter ficado em preto e branco, mas se trata apenas de uma questão de ajuste técnico.

O caminho, que parecia curto, abre-se para além do horizonte. E a mulher, num vestido curto cor de abóbora, sente o vento gelado a lhe beijar rispidamente a pele nua do trio que atende pelos nomes de canela, joelho e coxa. Um buraco no calçadão provoca-lhe a quebra do salto. E, agora, meio manca, meio firme, ela tateia a cidade qual pianista desajeitada. Passa por uma loja de calçados e, por alguns instantes (ou muitos, pois os relógios públicos estavam parados para ajustes), ela se detêm à vitrine, enfeitiçada pela liquidação em 10 vezes sem entrada. Ela voltaria ali pela manhã caso não estivesse com o cartão de crédito no vermelho. Findo o sonho de consumo, volta a andar fazendo o som de um cuco quebrado. Se o objetivo era ser discreta, nem a roupa extravagante nem a cadência da passada logravam êxito nisso.

Na quadra seguinte, então, um homem a observa enquanto fuma. A fumaça do cigarro se integra à neblina que domina o centro histórico da capital. O homem joga o cigarro no chão e, subitamente, sai em disparada na direção contrária. Quando chega em casa, o sujeito entra sob as cobertas tentando se recompor do susto recente. Jamais imaginara que veria tão horripilante criatura, com um passo típico dos monstros do cinema e uma cor vibrante que lhe ofuscou a vista. Daquele dia em diante, o homem parou de fumar para não ter de sair à rua nas altas horas em busca de umas tragadas no sossego. Já a mulher parece que voltou à loja no dia seguinte e comprou um calçado de salto baixo.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 15/09/2011.

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