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Houve, sim, um momento de ruptura, de quebra das circunstâncias que considerávamos essenciais e, principalmente, de satisfação para com as coisas miúdas que sempre nos acompanharam. E, para deixar claro, é preciso entender que tudo aconteceu na década de 1980, mais precisamente com o cinema, e ainda mais singularmente com aquelas histórias de crianças, adolescentes e jovens inseridos num mundo mais honesto porque não apelativo.

Nessa década em particular, temos umas centenas de filmes que trataram deste momento juvenil (e, após muita procura, juvenil talvez seja a palavra-chave para compreender a época). Entretanto, apenas umas poucas produções captaram aquele desentendimento característico, ou um estranhamento que se dá no próprio idioma. E nenhum capricho foi desfeito para corroborar as presunções esquemáticas de uma análise dita sociológica, ou antropológica, ou lógica. Pelo contrário, os anos 1980 aconteceram sem se dar conta disso; um período oriundo do ocaso, sorriso nobre jogado no final de um século triste e, muitas vezes, impiedoso.

Se antes, principalmente depois da 1a. Grande Guerra, era tudo uma questão de potência contra potência ou uma falsa sensação de equilíbrio, estes poucos filmes da década de 1980 colocam as noções das nações de lado, revigorando um individualismo transgressor que ficou subjugado por ditadores, pelas religiões ou por qualquer outro modelo de organização. Mas tudo ruiu, como bem vimos; seja na práxis desumana dos conflitos ou na projeção cinematográfica.

Estes filmes, pois, tratam de alguma esperança juvenil, o que não deve ser traduzido como sonho ingênuo. As personagens anseiam por horas de divertimento, um compromisso assumido com a totalidade das ações imediatas. O baile no final de ano, o último dia de aula, o clube de amigos que inevitavelmente será desfeito: as interpretações dessas sutilezas dão o tom amargo que o mundo sugere, mas que de forma alguma é aceito por estas personagens tão parecidas entre si e tão semelhantes a nós mesmos.

Quando a década de 1980 terminou de fato, com o fim de todas aquelas implicações sensoriais, o sabor agridoce daquelas produções permaneceu solitário na história do cinema no século XX. Com o fim daquela época, acabaram-se também as oportunidades do regozijo, do carpe diem, do indivíduo compreender que, pela primeira vez em toda a existência, estivemos perto de compreender o amor, longe do exagero romântico e cada vez mais próximo da única verdade que jamais poderemos supor.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 22/09/2011.

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