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Uma notícia triste lida no jornal o deixou com o coração pesado, repleto de lágrimas imaginárias que ocupam lugares escondidos da alma – sensação apropriada, diriam uns mais pessimistas, típica de final de ano, quando todos se dão conta de quanto tempo foi perdido em adjetivos vis para substantivos nobres.

Lera, pois, sobre uma família em difíceis condições após a fuga daquele que parecia ser o marido ideal. A mulher ficou sozinha na Ilha, jogada numa casa vazia de sentimentos, carregando uma criança no ventre, sufocada pela loucura da mãe em decorrência de uma misteriosa bactéria. Sem ter com quem se apegar, teve de deixar a casa na qual residia, pois já não conseguia mais pagar o aluguel. Foi com a mãe passar as noites em um abrigo público. Já os dias eram repletos de horas melancólicas. Percorria lugares em busca de emprego, de um aceno amigo, de refeições elementares, da fé alheia porque já não poderia mais contar com a sua própria. A história da mulher, observada pela jornalista que escreveu o texto, trazia fatos curiosos, como as origens lusitanas de mãe e filha, ambas naturais do Alentejo, ainda que apenas a mãe tivesse permanecido com o sotaque característico, num fraseado ágil, como se as palavras não tivessem início ou fim. A filha, aos 15 anos, veio estudar em terras sul-americanas, sonhando ser arquiteta como o falecido pai. Tempos depois, quando a mulher contava seus 33 anos, a mãe veio morar ao seu lado e os primeiros distúrbios de sanidade já se tornavam aparentes. Foi por essa época em que conheceu seu marido – aquele mesmo que agora estava completamente desaparecido. Mas quando se conheceram, tudo parecia ser quase perfeito, mesmo as chuvas que caíam na Ilha pareciam ganhar um tom púrpura, como se o cantor Prince estivesse interpretando uma de suas mais famosas canções. E ela gostava do Prince. E o marido a chamava de Princesa. Mas o amor, dizem uns mais otimistas, só eterno enquanto dura. E a vida de ambos ficou, aos poucos, a cada nova chuva, mais e mais distante, apagada por uma borracha invisível – a tristeza limpou os últimos vestígios de amor como naqueles fados nostálgicos que a mulher tanto ouvira em sua terra natal (antes de escutar Prince, é claro). A notícia terminava com uma revelação assombrosa: a mulher, apesar de tudo, ainda amava o marido como jamais uma mulher poderia amar um homem – com verdade e perdão.

Quando ele terminou de ler a notícia, uma cratera estava aberta em seu coração. Nunca pensou que a história de sua mulher estivesse estampada na capa de um jornal. Nunca imaginou que pudesse existir um amor assim.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 29/09/2011.

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