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Benditos aqueles que não sofrem de rinite e podem apreciar a todo momento os cheiros que a vida coloca diante de nossos narizes. Quem tem essa peculiar característica nasal muitas vezes não usufrui de um dos sentidos mais interessantes, talvez o segundo ou o terceiro dentre os sete existentes.

Qual não é a desapontamento de uma namorada ao borrifar um de seus mais caros e adocicados perfumes e… nada! Nenhuma exclamação, elogio ou afago que mencione o aroma comprado em dez ou mais prestações – e o vidrinho parecia ser menor do que a quantidade indicada no frasco. Mas o namorado, coitado, não é nenhum insensível para com as coisas do amor: somente outro a quem a rinite veio ter indefinidamente. São em situações assim nas quais me pergunto para que servem as 20 milhões de células sensoriais que carregamos em nosso epitélio olfativo? Parece muito, mas é muito pouco se compararmos a um cachorro, por exemplo, que possui mais de 100 milhões de células sensoriais. Tanta capacidade para armazenar as informações dos cheiros acaba sendo insuficiente em certas ocasiões. E quem tem rinite sabe que essa falta de informação olfativa dá nos nervos, transformando a respiração – nosso movimento corporal imprescindível – numa irritante atividade.

Por suposto, temos alguma teoria especulativa oriunda de tanta ausência de cheiros: estamos todos irritados demais para sentir qualquer odor ao nosso redor. O nariz coça e coça, você espirra e espirra, mas pensa apenas em quão bom seria se não tivesse de passar por todo aquele aborrecimento, por tamanha insatisfação sensorial. E, pensando em tudo isso, ninguém é capaz de sentir o sabor do ar.

Mas vamos e venhamos: quantas vezes falamos bem do nariz de alguém? Num certo sentido, o nariz é visto apenas como suporte para óculos e, quando muito, objeto de mutação para viciados em cirurgias plásticas – e aqui o nome do astro pop Michael Jackson sempre aparece na ponta da língua (ou do nariz). Ainda assim, devemos muitos bons momentos ao nariz e às sensações que o mesmo nos proporciona, destarte que muitas refeições não seriam tão aprazíveis sem aquele frescor do aroma que pode ser considerado o início da degustação.

Fica a dica, então, para todos aqueles obcecados pelas fragrâncias, colecionadores de perfumes ou apenas entusiastas dos cheiros: se for namorar alguém com rinite, perdoe-o de todo coração, pois suas desventuras já são suficientemente grandes para mais uma coisa lhe tirar o humor. Quando tudo acabar, basta respirar fundo e agradecer pela oportunidade.

 > Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 06/10/2011.

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