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Quisera eu um segundo poema tão ou mais necessário que o primeiro. Algo como o uivo daquele lobo traiçoeiro, Ou, talvez, suave odor de alfazema. Quem dera ditar versos leves e contar as plumas que caem sem o peso da viagem e a ausência do que não vês. Ainda sonho com vaga dialética para juntar dois ou mais sentidos ao término de uma escrita poética. Nem tudo tem rima e o que tem não termina.

Quando chegar o fim dos meus dias idos, espero que sobre algo da estética – pelo menos nesses segundos poemas jamais lidos por palhaços abusados ou palhaças atrevidas. E, assim mesmo, há um gênero do amor que é tão infantil e terrestre como mais explícito e sofrível assomo: o que chama de “sortilégio” o nobre bretão. Como não lembrar da sapecada que a criança induziu aos adultos desajustados. Em algum momento, pois não sabemos qual, o ato de coragem destes palhaços que seduzem mulheres e homens na madrugada foi mais violento e cruel do que qualquer outra artimanha dos poetas.

E, por aí, existem, tantos órfãos de sentimentos individuais. Gente que vê os navios aportando no cais como quem ri de chegadas e partidas. Solitários a escrever em papiros manchados de vinho, ou coisa que o valha na imitação. E borram a área central da ilustração, ficando ambos avermelhados: uma foice e um machado!

Quando iniciaram as navegações, saliente-se, a Terra ficou pequena e o oceano se desnudou. No entanto, o atlas medieval sucumbiu às revelações feito uma história com duas personagens, num ambiente sem janelas, portas, calendários ou meias-de-lã. Coisa incomum de sabor agridoce. Todos estão trancados e gritam ao infinito – um som de uma nota apenas, qualquer nota desde que em falsete. E, mais tarde, este eco se pôs em tom sobre tom: um aviso de que todo o fôlego utilizado serviu tão somente como aula de canto.

O tempo pode ser o maior vilão que há na terra, se o que nos torna fortes e guerreiros desaparecer e se apagar qual o néon dos letreiros no cômico ato iminente da última grande guerra. Mas não é possível nem digno culpar o tempo apenas. Há muito mais escondido nos corredores da história: obras de cunho polêmico que trazem alguma vitória. Tragédias incoerentes de consequências pouco amenas. Assim, sob ruínas, viajamos até a última canção antiga. Percorremos escombros muitos, viga sobre viga. E, como saldo, temos vestígios de uma época que se solidifica.

Juntos, porém, contamos sempre novas outras versões. Historietas que atravessarão séculos, e às futuras estações deixaremos o legado que o tempo não nos legou.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 20/10/2011.

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