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Da animação inglesa (na verdade, uma co-produção entre EUA e Reino Unido) aparece o rápido e certeiro filme Gnomeu & Julieta (2011), de Kelly Asbury, que já tem alguma experiência neste assunto digital – vide Shrek 2 (2004), como diretor, e outros trabalhos, como assistente no departamento de arte.

Mesmo que o diretor seja estadunidense, o filme conta com uma leveza inglesa presente em produções honestas e meticulosas, como por exemplo Um Lugar Chamado Notting Hill (1999), de Roger Michell.

Ao contar as aventuras de anões de jardim que são vizinhos e travam batalhas devido às antigas rixas familiares (Capuletos vs Montéquios ou, no caso, Vermelhos vs Azuis), Asbury apresenta indiretamente Shakespeare às gerações mais novas e com o próprio bardo destilando sua sagacidade ao ser representado por uma estátua em uma praça qualquer da Inglaterra.

Com um mote semelhante àquele dos filmes da série Toy Story, os anões de jardim só ganham “vida” quando não há qualquer ser humano por perto, e aprontam e aprontam e… se apaixonam, porque afinal a história inspiradora era, evidentemente, um conto sobre o amor e a paixão – e o quanto as pessoas não lidam bem com estes dois.

Gnomeo e Julieta são os anões de jardim das casas rivais que fazem Shakespeare parecer ainda mais divertido. Harold Bloom, talvez o mais influente pesquisador shakespeareano da atualidade, comentou certa vez que os jovens deveriam ler obras da alta literatura desde cedo, porém não aquelas muito rebuscadas, e citou Romeu & Julieta como um texto adequado. Está bem que a obra é uma tragédia com um final ligeiramente pertubador, mas a vida também se aprende nestas inconsistências sociais. E a rivalidade desmedida é nosso maior sintoma humano, pois percorremos nossa história ao longo de conflitos e disputas, enfrentando o desconhecido, e munidos de uma capacidade única de não enxergar a paz.

Contando ainda com a produção executiva de Elton John, temos algumas canções bem conhecidas do compositor/cantor/pianista. E não se trata de um musical animado daqueles típicos filmes Disney no período pré-Pixar. Pelo contrário, as músicas são oportunamente bem aproveitadas na sua essencialidade – caso de Your Song, talvez o maior hit de Elton John, que aparece uns poucos segundos em cena (mas em tempo suficiente para brincar com o próprio artista).

Enfim, o bardo provavelmente daria seu aval para esta produção que, se não é brilhante, ao menos sintetiza o sentimento de sua obra mais conhecida.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 27/10/2011.

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