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A internet, ao oferecer tudo e nada ao mesmo tempo é, em muitos sentidos, uma espécie de hecatombe do conhecimento humano. Claro, poderão dizer uns, esta seria uma impressão atual de um fenômeno atual – ou seja, a história ainda não deu seu parecer sobre o tema com o distanciamento necessário. E isso também é verdade. A diferença, porém, está na relação que temos para com a tecnologia.

Houve mudanças, sim, quando inventaram a máquina a vapor, com o cinema, com o rádio, com a televisão. Mas, por certo, todas estas invenções humanas foram aceitas pela maioria das pessoas de forma passiva. 99% de nós apenas curtimos e nos estressamos com carros ao invés de cavalos, com imagens em movimento no lugar de fotografias estáticas.

Atualmente, porém, somos parte da tecnologia. Somos a internet porque esta é alimentada por nós e estamos ali com nossos avatares. Cada um de nós é uma “entidade” na internet porque respondemos aos comentários em nossos blogs, participamos de “comunidades” físico-virtuais, temos mesmo uma vida em paralelo e em perpendicular através das oportunidades geradas pela rede mundial de computadores.

Nasci em 1981, no Brasil, portanto acompanhei coisas surpreendentemente estranhas àquelas pessoas que nasceram a partir de 1995. Em 2000, a internet não tinha o apelo que tem nesta segunda década do novo milênio, mas já existia enquanto ferramenta contemporânea, presente, sobretudo, no cotidiano de crianças que, muito provavelmente, aprenderam a digitar na mesma época em que aprenderam a escrever e, em algumas ocasiões, quiçá, brincavam com o “mouse” no computador antes mesmo de aprender a ler.

Em minha experiência, aprendi a conhecer o mundo sem a necessidade da internet. Naquela época, até metade da década de 1990, quando os anos 1980 ainda faziam-se valer, a televisão ocupava muitas horas do dia. Se voltasse no tempo, uns 20 anos, por exemplo, estaria em noites como esta que agora se apresenta do outro lado da janela jogando videogame ou assistindo televisão (talvez uma fita de videocassete) ou ouvindo um disco de vinil.

Sempre, é preciso fazer o alerta, os dois lados da moeda (já que o mundo é assumidamente capitalista) estão irremediavelmente ligados, e creio que essa coexistência seja uma necessidade da nossa espécie. A insatisfação pessoal nos levou ao espaço, buscando novos planetas porque sabemos que, um dia, há a possibilidade de colocarmos fim à Terra antes que as engrenagens do Universo possam fazê-lo. E, no fim, nem mesmo o mundo virtual sobreviverá nesta hecatombe.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 03/11/2011.

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