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Ela: Olha amor, já que estamos presos no trânsito, acho que é um bom momento para discutirmos nossa relação. Há tempos que sei que você está evitando isso.

Ele: Queria mesmo era ter evitado este trânsito. Falei que a gente deveria ter se mudado logo para Biguaçu, perto do mar. Mas em 1990 você dizia “não, não… é só terminarem a nova Ponte que vai melhorar”. E agora, onde a gente está? Oras, trancados em cima da ponte.

Ela: Isso já faz mais de 20 anos. Esquece essa história.

Ele: Como esquecer? Tem duas décadas que a gente se incomoda e cada vez mais só piora. Agora, estão dizendo que vão construir a quarta ponte. A quarta! Você vai querer esperar mais 20 anos?

Ela: Eu acho que você é quem mais espera as coisas acontecerem. Só faz reclamar e não toma nenhuma atitude.

Ele: E você acaso concorda com qualquer coisa que eu digo?

Ela: Discutir não faz mal, depende de como você encara tudo o que a gente conversa. Você nunca dá o primeiro passo, nunca vai para a frente.

Ele: Deus do céu! Eu só queria ir para a frente com o carro. Com o carro!

Ela: E essa sua mania de repertir as coisas!

Ele: Que mania? Que mania?

Ela: Exatamente.

Ele: Você fica falando sempre que eu reclamo, mas você é ainda pior. Eu quis comprar um apartamento na praia, e você disse que era longe do centro. Eu quis um automóvel maior, e você protestou que ia ficar ruim de estacionar. Eu quero abrir um lava carros em Biguaçu; você, uma lavanderia em Florianópolis. Acho que você não consegue mais fazer nada sem me contrariar.

Ela: Exagerado! Além do quê, parece que tudo o que você diz tem a ver com trânsito. Não dá para mudar o assunto?

Ele: Eu mudaria de pista, se fosse possível. O pessoal da esquerda está andando mais rápido que a gente.

Ela: Honestamente, eu acho que você perdeu o interesse na gente. Antes, você conversava mais, queria passear em vários lugares, sair com os amigos. Agora, fica no trabalho oito horas por dia e chega em casa com a cara fechada, come qualquer coisa, assiste um filme qualquer e vai deitar. Às vezes, parece que você já morreu e nem sabe.

Ele: Quem morreu foi o motor do carro. Eu pedi para você não ir visitar a sua mãe em Palhoça. Olha que eu avisei que o motor estava forçando, que era melhor não abusar. Agora é capaz de vir um guarda aqui e ainda multar a gente por atrapalhar o tráfego.

Ela: Como se fosse possível piorar essa fila que não anda.

Ele: Ufa, o motor ligou de novo. Parece que lá na frente os carros estão se mexendo. Quando a gente chegar em casa, eu arrumo tudo.

Ela: A nossa relação? Você vai consertar?

Ele: Estou falando do carro. Do carro!

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 17/11/2011.

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