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Tinha muitas vidas. Poderia ser Edgar Allan Poe ou Victor Hugo quando bem entendesse. Quando queria um pouco mais de aventura, transfigurava-se em Mark Twain ou Charles Dickens. Ainda conseguia poesia nas formas de Ezra Pound ou Florbela Espanca. E assim vivera tantas vezes que conseguira, finalmente, a imortalidade. Seu nome mais comum era Texto, mas também atendia por Memória, Alma e Imaginação.

Desta vez, estava dentro de uma garrafa. Aprisionado por um escritor que lera “O Velho e o Mar”, de Hemingway, mas terminara por naufragar como Luís Alejandro Velasco, personagem real de Gabriel García Márquez em “Relato de um Náufrago”. Munido de um lápis e algumas folhas em branco, o escritor colocou todo o seu desespero e sua angústia de estar à deriva em um Texto (sim, o próprio) tão trágico quanto belo.

Nos parcos papéis que possuía, contou desde seus primeiros passos na infância até os grandes relacionamentos que tivera na vida. Enquanto escrevia sua pequena narrativa, uma frase do escritor argentino Jorge Luis Borges lhe veio à mente: “Se lemos algo com dificuldade, o autor fracassou”. Era de um pequeno ensaio em que Borges tinha como tema central o livro e, ainda que não fosse tão pretensioso a ponto de que seu relato, um dia, se tornasse um livro, sabia que alguém poderia encontrá-lo e tratou de escrever com simplicidade e precisão.

O céu ensolarado ardia os olhos já cansados, mas não largou o lápis até que finalizasse sua história. Nos momentos finais da narrativa, revelou então que, pouco antes do naufrágio, conhecera Ernest Hemingway na capital francesa quando este escrevia “Paris é uma Festa”. Encontrara-o repetidas vezes no Café de Flore e conversavam muito sobre o ofício de escrever. Descobriu que Hemingway sentia uma grande admiração pelos jornalistas, mas que sua essência era, de fato, a de um escritor.

Depois de Paris, subiu na embarcação do capitão Ahab e foi à caça da baleia assassina “Moby Dick” descrita por Herman Melville. Desta forma, retornou ao ponto em que estava, finalizando seu relato e colocando-o dentro da garrafa que, minutos depois, jogaria ao mar.

Doze anos depois, a garrafa com o Texto fora encontrada em Florianópolis, uma ilha ao Sul do Brasil. Um jovem caminhava pela praia dos Ingleses quando viu o objeto flutuando perto da areia. Como ele era um estudante de jornalismo e apaixonado pela futura profissão, foi atrás de mais detalhes sobre o autor daquele Texto e descobriu que o homem jamais fora encontrado. Entretanto, as palavras ali escritas tornaram-se singulares na vida daquele que foi o seu primeiro e único leitor.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 1º/12/2011.

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