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Antes de mais nada, devo confessar que esse período que antecede a chegada de um novo ano, de acordo com o calendário cristão, não me é assim tão cativante.

E tudo isso por uma questão muito simples: não compreender por que as coisas têm de ser melhores e especiais apenas numa época do ano. Temos aí sempre 12 meses para fazer o que precisa ser feito e, mesmo assim, parece que tudo só dará certo nesse pouco mais/menos de um mês que acompanha as comemorações de Natal e Ano Novo.

Tradição é importante, indiscutivelmente. E nem cá estou eu a ir contra uma celebração encenada mias de duas mil vezes. Falemos baixinho, porém, e sejamos menos regrados em querer cenas coerentes de nosso cotidiano milenarmente construído. Parece-me demasiado estranho depositar nisso nossos anseios e acreditar que uma simples mudança de número será o elemento sine qua non do aguilhoamento que o novo ano trará. Já não estamos mais em fin-de-siècle para que seja feito todo essa mise-en-scène.

Palavras estrangeiras à parte, voltemos ao que nos interessa. As bobagens não tão bobas assim da aurora de um novo tempo.

E lá se vão dois milênios desde que aquele filho de carpinteiro pôs os pés no mundo para influenciar sobremaneira o modo de vida ocidental. Tenho comigo que Marx e Cristo são as duas figuras que mais incidiram no pensamento do Ocidente e, em tempos globalizados, no Oriente também. Afinal, ainda que Cristo não tivesse os olhos puxados, as igrejas cristãs já estão por aqueles lados onde o sol nasce.

E o que Karl e Jesus têm a ver com o tema destas frases? Respondo-lhes, astutos amigos, numa palavra: Esperança. Posto que o Marxismo e o Cristianismo não foram fundados por Marx e Cristo, respectivamente, tudo o que temos hoje é uma forma de pensar e viver tão somente baseada naquilo que ambos pregaram numa determinada época da história humana. Assim, o cristianismo dá a esperança de que todos, um dia, encontrar-se-ão com Deus. Já o Marxismo, fomenta a esperança de que as desigualdades, um dia, terão fim, quando então o comunismo fará a paz reinar na terra.

Entretanto, Cristo e Marx morreram sem ver seus ideais em pleno vigor. E, permitam-me, utilizar-me-ei de uma sentença do nosso mestre realista Machado de Assis: “A esperança ainda os fez relapsos, mas tudo morre, até a esperança, e eles saíram para nunca mais”. Posto isso, resta-me pensar que a esperança, na maioria das vezes, deve ser deixada de lado. Sim, esqueçamo-la! Nada de esperança para o ano que vem; vamos mudar o discurso. Vocês já pensaram em fazer algo?

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 08/12/2011.

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