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Foi por causa de uma mentirinha à toa que se conheceram. Estavam num destes eventos culturais nos quais vão as mesmas pessoas de sempre. Poderia ser uma vernissage ou um lançamento de um livro, mas pouco importava – a maioria só estava lá para aparecer… e pelo coquetel.
Quando ela esbarrou nele propositadamente sem querer, a faísca acendeu. Claro que o fogo ainda era brando, mas logo esquentou quando ele foi buscar duas taças de vinho.
– Obrigada, ela disse.
– Ah, você também quer uma?, brincou ele.
E riram. Nesse momento, a mentirinha apareceu ao ser perguntado sobre sua profissão.
– Sou escritor, respondeu sem hesitar.
Mas não era. Desde pequeno odiava as aulas de português – era mais inclinado à matemática do que à gramática. Mesmo assim, expressava muito bem verbalmente. Prestava muito atenção na pronúncia das palavras e, quando ficava em dúvida, usava outra para substituir a intenção original.
Mentiu, porém, para impressioná-la. Era um adepto dos esportes, mas vez por outra curtia uma atividade cultural, como assistir um filme ou apreciar um show musical. Gostava de pessoas interessantes – ainda que, nesses lugares, aparecessem muitas pessoas interesseiras.
De volta à conversa e sem mais digressões, o garçom escutou o diálogo entre ambos quando deixava uns aperitivos de camarão.
– E no que você está trabalhando atualmente?, perguntou curiosa. Uma história de amor?
– Mais ou menos. Meu interesse no amor é um tanto quanto antropológico. O romantismo é muito exaltado na nossa sociedade, mas acredito que tem muito mais em jogo.
– Então se apaixonar é como disputar uma partida qualquer?
– De certo modo, sim. E todo mundo quer vencer, por isso acontecem tantos problemas.
– Hum, interessante. E o livro tem nome?
É claro que não havia nome nenhum, pois sequer havia escrito qualquer coisa com mais de duas páginas em toda a sua vida. Tudo o que acabara de dizer para ela eram coisas que assistira em programas de TV por assinatura – naquelas épocas em que os canais de esporte só reprisam jogos antigos.
Pegou um aperitivo de camarão e, enquanto o mastigava, pôde pensar num título.
– O verdadeiro livro do amor dos mentirosos. É assim que eu o chamo.
Ela sorriu. Havia gostado do que ouvira, pois finalmente conhecera um homem honesto que falava com sinceridade sobre os relacionamentos amorosos e o que se poderia esperar deles.
– Podemos ir para sua casa? Ela perguntou.
– Claro, acho que temos muito para nos conhecer.
– Com certeza. E em primeiro lugar eu queria conhecer o seu livro.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 29/12/2011.

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