Tags

, ,


Vou ser franco com você: não acredito no fim do mundo, pois as forças que regem o universo não teriam coragem de destruir lugares assim como Florianópolis. Pode parecer um orgulho ilhéu desmesurado, mas não o é. Sempre fui contra bairrismos e, particularmente, também não vejo mais lógica nas fronteiras quando o ir e vir está determinado pela conta bancária e/ou a capacidade de pagar as prestações de uma viagem qualquer. E, além do mais, de certa forma e sem muitas ambições motivadas por vaidades que não levam a nada, tudo o que precisamos está bem na nossa frente ou do nosso lado.

Esta Ilha que tanto nos cativa tem de estar imune ao fim do mundo por razões que não poderemos explicar com palavras crônicas ou imagens icônicas. Não adianta buscar a compreensão da não finitude destas praias recortadas, morros e lagoas apenas com a música faceira de um poeta ou o olhar sensível da velha rendeira tradicional. Aceitar que a Ilha resistirá aos eventos cataclísmicos que, segundo os Maias, terão vez em 2012, vai além de uma questão de fé.

Já morei tanto na parte insular quanto na área continental de Florianópolis, e se cito mais a Ilha em minhas crônicas é apenas por uma afeição conquistada na infância, com aventuras possíveis de uma criança pelas ruas e terrenos baldios (hoje já escassos) de um lugar chamado Parque São Jorge. Com suas avenidas e ruas ausentes de prédios e repletas de casas, aprendi a ver o mundo do meu jeito: espécie de universo reduzido, sem muitas dicotomias, é bem verdade, mas ainda assim tão vasto em particularidades quanto a imaginação infantil pode ser. E no Parque pude presenciar casas de amigos ou conhecidos alagadas pelas chuvas fortes das estações quentes. O pequeno córrego que corta o bairro não era capaz de dar vazão às águas trazidas sem culpa pelas nuvens e pelos ventos. Mas todos resistimos àquelas épocas sem graça como também suportaremos os dias lúgubres que as previsões mais desanimadoras para este ano possam corroborar.

Em algum momento, no entanto, e desdizendo a tudo que os parágrafos anteriores insistiram em afirmar, o universo chegará ao seu limite de expansão e nem mesmo um planetinha azul e bonito como o nosso terá vez na entropia de um big bang reverso. Mas se existir um lugar além da matéria, capaz de absorver tudo aquilo que não se traduz fisicamente, teremos a certeza final que Florianópolis existirá para sempre em nossos corações, como o pedacinho de terra que aprendemos a gostar.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 05/01/2012.

Anúncios