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Eu acredito na ciência tanto quanto a ciência acredita em mim. Sou fã das teorias, mesmo aquelas não provadas. Quero ter o apoio de tudo aquilo que é matéria mesmo quando eu e os meus próximos voltarmos ao pó. E não darei adeus para um pensamento quando outro aparecer; eis um caminho aberto para a ciência vir completar a fé – afinal, o desconhecido está presente igualmente para o religioso e o cientista. Então, podemos supor que o cético é aquele que ainda não passou por certas experiências e nem se deixou levar por uma verdade que parece não fazer sentido. E, na maioria das vezes, não faz sentido algum.

O que se esconde na natureza, sob ou acima de nós, é a força motriz de nossa espécie. Como os outros bichos, somos curiosos, mas fomos além ao supor que poderíamos explicar um princípio tão vago quanto a existência – da vida, dos objetos, das ideias. Se nos afastássemos alguns anos luz deste nosso grande lar e olhássemos ao lado das estrelas para o planetinha azul que deveria se chamar “Mar” e não “Terra”, qualquer coisa que por ventura acontecesse debaixo dessa camada gasosa que nos protege chamada atmosfera pareceria não ter qualquer relevância no lento caminhar do cosmos. Entretanto, o que seria motivo para alguma frustração intelectual é precisamente aquilo que faz da história terrestre uma aventura tão singular.

E a consciência (espécie de ciência da alma!?) é quem orienta os passos desta marcha intra-planetária que todos os seres vivos obedecem. Porque temos alguma ciência de nosso próprio tempo também nos convém assumir a culpa pelo que o mundo se tornou. Começamos não se sabe como, fomos atrás da sobrevivência, firmamos laços de sangue, juntamo-nos em grupos, desenvolvemos sistemas de controle e, então, tornamo-nos sujeitos de nossa espécie naquilo que pode ser considerado a existência mais anti-natural que a natureza foi capaz de criar. Por tudo isso, somos responsáveis e procuramos algo que possa restabelecer o que foi perdido, religando-nos com o passado, com a criação, como sugerem as religiões.

Eu acredito na não-conformidade – aquela pulga atrás da orelha que está presente em todas as viagens dos descobrimentos, sejam estas realizadas através de naus ou caravelas, de lendas ou fatos, de computadores ou livros.

O conhecimento está para mim assim como a ciência está para a matéria. E, do Universo ao único verso do poeta, tudo pode acontecer: mundos hão de colidir, estrelas brilharão em explosões galáticas, ondas continuarão a trazer as conchas para a praia enquanto uma criança, curiosa, fará buracos na areia.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 12/01/2012.

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