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Foi num apagão destes que acontecem vez por outra em nossas residências que a ideia me surgiu. Uma ideia sobre ter ideias, de fato. Algo assim não muito valioso como a teoria da relatividade ou a física quântica, mas suficiente a ponto de provocar esta crônica.

Causa e consequência: o apagão que nos deixa sem luz pode, simultaneamente, iluminar a mente, clareando os pensamentos que instigam ainda mais nossa imaginação. Pense cá comigo no que você faria quando da ausência de energia elétrica. Nesta noite de verão, além de passar um bocado de calor por conta do ar condicionado desligado, você também teria a chance de recorrer aos objetos mais simples, como um livro (que pode ser lido à luz de velas) ou mesmo um simplório rádio a pilha (caso a emissora não estivesse às escuras feito você). Sim, tais pequenos elementos tão presentes em nossas vidas – afinal, livros e velas necessariamente deveriam fazer parte de qualquer casa – permitem-nos enxergar para além dos olhos.

Com o rádio ao seu lado, tendo ao redor a escuridão, você fará elucubrações outras que costumeiramente sem perdem na claridade. Indagará a si mesmo sobre como será a fisionomia do/da locutor/a, qual será o sentimento específico que chamou a atenção do compositor daquela música… e, ainda que você esteja sozinho, terá por certo uma interessante companhia que, se não pode lhe ouvir, ao menos lhe permite sonhar acordado/da. Já com o livro a história é mais ou menos parecida, ainda que mais visceral. Creio que as intenções literárias só tenham paralelo com as intenções cinematográficas. A história de um livro ou gravada num filme propiciam sensações semelhantes até mesmo nas suas mais básicas diferenças. Mas como a energia não pode ser usada e a imagem em movimento depende essencialmente daquela, ficamos com as páginas dos livros e com o universo literário por nossos companheiros desta noite quente. Linha por linha, palavra por palavra, seremos iluminados por qualquer coisa tão estrondosa que chamar a literatura de arte é apenas uma ideia restritiva. E, nesta noite, abundam ideias na mesma medida em que a luz falta.

E, no dia seguinte, antes fechar a porta de casa para ir trabalhar, você conversa com seu vizinho sobre o apagão, quando ele lhe pergunta se na sua casa também faltou luz.

Sem titubear, você responde:

– Na verdade, sobraram ideias.

O vizinho ficará sem entender sua resposta, mas no próximo apagão, talvez, também será a vez dele de fazer algo mais do que apenas suar com o ar condicionado desligado.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 16/02/2012.

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