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Você, como eu, nalguma oportunidade já limpou a poeira que aparece não sei como e torna a aparecer sem que saibamos o porquê. E, tendo feito isto, com uma vassoura ou uma flanela ou outra coisa qualquer, poucas vezes nos damos com a mais ínfima e íntima substância que nos acompanha desde sempre, quando o tempo (veja só!) era tão somente uma ampulheta sem nome e a humanidade engatinhava na trajetória evolutiva.

Para evolucionistas ou criacionistas a poeira tem seu espaço – com o perdão da brincadeira. Enquanto os seguidores de Darwin apontam que todos somos poeiras de estrelas, oriundas dos grandes choques do cosmos que geraram as galáxias e tudo o que nelas existe, aqueles tementes à fé religiosa (com seu Criador soberano) decretam que do pó viemos e ao pó retornaremos. Um ou outro, cientista ou religioso, estão unidos pela essencialidade que se esconde num punhado de pó.

Você então se questionará: em qual dos grupos este autor se encaixa? Mas isso pouco importa. Aliás, importa menos que a poeira que você limpou antes de ler este texto. Mesmo os cientistas, ainda algumas décadas passadas, apenas tiravam a poeira de seus móveis enquanto estudavam outras coisas. Foi apenas a partir da segunda metade do século XX que esta turma voltou seus olhos para um assunto tão elementar. Desde então, sabe-se que a poeira circula constantemente ao redor do nosso planeta, contribuindo com a natureza em vários aspectos – dos oceanos às florestas. Estima-se que a Terra libere mais de 2 bilhões de toneladas de poeira por ano! Isso nos faz questionar que, por vezes, estamos pisando no solo de outro país sem sair de casa. Assim, a impune poeira dá uma lição nos governos que insistentemente colocam fronteiras num mundo feito para todo mundo – novamente, perdoem-me o sincretismo.

Longe de mim provocar em você uma exagerada valorização de qualquer poeirinha que estiver por aí. Pelo contrário, é fundamental tirar o excesso de pó que teima em nos fazer companhia. E comento isso com a experiência própria de um alguém que sofre com rinite e sinusite. Nosso nariz é um elemento indispensável quando se sabe desta poeira toda. Minha intenção é não mais que realizar um simples exercício mental, indagando sobre nossa presença – minha, sua e dos outros – aqui neste paraíso que, segundo desconfio, foi a única casa daquele belo casal feito de poeira chamado Adão e Eva. E ambos (assim como nós nalgum dia) também são a mesma poeira de estrelas que, inadvertidamente, limpamos com uma vassoura, uma flanela ou outra coisa qualquer.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 22/03/2012.

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