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Acordou com uma grande algazarra popular. Não sabia exatamente o motivo, mas percebeu logo do que se tratava: mais uma crucificação. A gritaria, enfim, passou pela frente do pequeno jardim que cultivava em Jerusalém e pôde ver um homem jovem, de rosto belo, mas machucado por alguma punição recente, carregar uma cruz enquanto os soldados o açoitavam! Antes de deixar o local, ele a olhou com os olhos manchados de sangue e poderia jurar que conseguiu ouvi-lo dizer “você viverá por muito tempo”. Assim que a multidão passou, um estranho ser foi conversar com ela.

– Eu sou o anjo caído e ofereço a você melhor destino do que aquele belo rapaz que passou por aqui há pouco terá. Ele morrerá pelos outros, enquanto você viverá enquanto o mundo for mundo. Eu fico com sua alma, você com a liberdade da vida. Que me diz?

Assim que aceitou, o anjo lhe beijou o pescoço e cravou os dentes afiados em sua jugular. Claro que as consequências mais cruéis ela só veio a saber depois: nunca mais poderia ver a luz do dia e estava condenada a percorrer uma longa curva vermelha através dos anos, bebendo sangue para continuar imortal.

Que bagunça!, ela exclamou ao passar pelo tumultuado centro de Ravena. Morava há alguns anos na capital do Império Romano, mas não se adaptara àquela agitação toda. E qual não fora a sua surpresa ao ver no meio daquela bagunça o outrora o imperador Rômulo Augusto vestido de camponês, feito prisioneiro por Odoacro. Séculos mais tarde, soube o quão importante aquele momento significava!

Por sua condição única, preferia viver nos grandes centros para não despertar especial atenção. Morava em Ruão, na França, num período em que a cidade era controlada pelos ingleses. E ficou chateada quando viu uma jovem com um rosto carismático, a pele alva e os cabelos levemente loiros ser levada presa pelos ingleses. A jovem fora acusada de heresia e assassinato, sendo condenada a arder publicamente nas chamas de uma fogueira na Praça do Velho Mercado. Séculos depois, leu no jornal sobre a canonização daquela linda francesa loura pelo Papa Bento XV.

Quando acordou à noite, em Nova Iorque, soube que as Torres Gêmeas, um local onde ela costumava realizar passeios noturnos à procura de sangue fresco, foram ao chão quando dois aviões explodiram num atentado que chocou o mundo. E caminhando pelos destroços do local sob a luz da lua, indagou a si mesma se a longa curva vermelha era só dela e, ainda, se não haveria mais pessoas desalmadas que também estiveram em contato com o anjo caído.

 > Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 19/04/2012.

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