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À medida que a gente envelhece, compreende as coisas de um jeito diferente. Não tem nada a ver com ficar mais inteligente ou sábio, pois esse é um terreno no qual pisam cada vez menos pessoas nesta pós-modernidade. Trata-se, essencialmente, de admitir que certas descrenças são os pilares fundamentais sobre os quais a sociedade se erigiu.

Entre as principais descrenças que, inevitavelmente, fomos condicionados a aceitar está a massificação do ensino, coisa assim tão óbvia para nós que, em algum momento, deixamos de lado e nos acostumamos. Quando os governos colocam burocratas em cargos de gerenciamento no setor educacional, temos aí o anúncio de que a igualdade entre os estudantes se dará apenas na mediocridade de seus conhecimentos ditos fundamentais. Não por acaso, a lógica do vestibular determinou que todo ensino médio se tornasse apenas um curso prolongado para passar num teste. Claro que o vestibular não é um teste qualquer, mas sim a continuidade da lógica massificadora, pois apenas aqueles que se submeterem ao sistema do ensino burocrático, privilegiando a homogeneidade sobre a singularidade, terão algum êxito e conquistarão as vagas de sua preferência.

Se no ensino público temos as inconveniências de gestores cujo único objetivo é aumentar os índices escolares para que o trabalho seja reconhecido por seus superiores, no ensino privado as coisas vão mal igualmente – já os negócios vão muito bem, obrigado. Os donos de colégios, cursinhos e afins são meros empresários no sentido de origem. No mercado, não há espaço para loucos cheios de boas intenções que desejam tornar as pessoas melhores. Nada disso; e não me venham com esses discursinhos floreados em períodos de matrículas escolares. O aluno da rede privada é sujeito da situação: um cliente, para todos os efeitos dentro da sua instituição. Mesmo o professor particular sabe que tanto maior será sua renda quanto melhor o aluno se acostumar às ideias massificadoras. Incentivar a criatividade, a discussão sobre os porquês da grade curricular ou ainda instigar a leitura de mundo não trará retorno algum ao aluno que se prepara para o vestibular, pois as questões somatórias ou de assinalar não levem em consideração a originalidade das respostas.

Esses conceitos, vale lembrar, não são novos. A meu ver, o principal autor que serve de apoio para estes pensamentos sempre imperfeitos é o filósofo Ortega y Gasset, que cunhou a ideia do homem-massa: este ser que a sociedade inconscientemente deseja que nos tornemos todos, iguais justamente naquilo que deveríamos ser diferentes – seres humanos mais ou menos tortos.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 05/07/2012.

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