Tags

, , , , ,


Com um biquíni colorido, tão atentado e despudorado quanto qualquer gesto seu, ela saiu perdida entre demasiados olhares diretos e declarações insinuantes. Tinha sorte e sede, feito uma adolescente felina, mesmo já sendo uma gata maior de idade – e acabou num só gole o refrigerante gelado. Com sua moto prateada, a jovem deixou para trás olhares quase sacanas de uma turma que só se interessa na vaidade. E ela não era qualquer uma, sabia bem disso. Todo mundo deseja algo para si e para os outros; esta era a lição que trazia consigo, feito uma tatuagem que custa a apagar. Era linda, ninguém negava. Aos poucos, acostumou-se a ser desejada, mas nunca fez questão de ser lembrada através da beleza que o universo conspirou sobre o seu corpo. Nem mesmo a física explicaria seu físico tracejado por curvas graciosas e ondas solares a lhe escorrer os ombros. Estes cabelos chamuscados e marouços agora voavam sob a vontade do vento, enquanto pilotava a prateada entre os automóveis. Estava com as roupas úmidas do recente banho de mar que já ficara para trás. Mas o frio não era incômodo tendo em vista aquele recente episódio do qual sua mente não fazia esquecer. Desde pequena, aprendera a lidar com a razão e nunca fora muito de se ocupar com emoções triviais. Assistia aos filmes de suspense não para sentir medo, mas sim por ter a ciência de sua sobriedade temperamental. Gostava das cenas especialmente críticas, quando o que parecia inesperado se revelava de maneira abrupta – e era quando permanecia ainda mais tranquila. Mas aquele fato tão atual ainda não fazia sentido algum. Já não existiam explicações lógicas sobre as quais suas ideias não tivessem sugerido. Chegou até mesmo a imaginar que pudesse estar doente; talvez um pequeno problema no cérebro, desses que podem ser resolvido através de uma cirurgia simples. Ou seria então uma falha no nervo óptico; afinal foram seus olhos que lhe aprontaram aquela singular condição de dúvida. E por que tudo isso só agora, se já nadara muitas e muitas vezes? Hoje, excepcionalmente hoje, decidira pelo biquíni colorido, colorindo ainda mais as areias da praia. Deixou o corpo receber algum impacto do sol, dourando um pouco mais sua pele serena, antes de mergulhar próximo às pedras, onde o litoral faz a curva numa potente rebentação. Sob as águas, o inimaginável a lhe deixar extasiada na aparição de um escafandro ectoplasmático tão igual ao seu único e perdido amor. Voltaria amanhã para outro mergulho, não restavam mais dúvidas, mas desta vez não usaria o biquíni colorido que ele tanto detestava.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 19/07/2012.

Anúncios