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Poderia ser um caso de amor, mas eu não estava apaixonado. Mandei flores, é bem verdade, mas foi mais por uma questão de simples galanteio e, claro, por ter uns trocados sobrando no bolso para gastar com algo cujo resultado me era desconhecido. A conheci num trabalho provisório, quando estava cobrindo as férias dalgum funcionário tão terceirizado quanto eu. Assim, teria a companhia daqueles que lá trabalhavam por pouco menos de 30 dias úteis, que é de fato o que importa para se construir qualquer caso.

Com uma ou duas deixas insinuadas em suas falas, coisas do tipo “sou nova na cidade e não conheço muito”, concluí que uma oportunidade assim não aparece todo dia, ainda mais quando se está trabalhando nas férias de outra pessoa. Pensem vocês, leitores e leitoras, o funcionário de fato do setor deveria estar na praia ou em casa, descansando dos 11 meses anteriores e, talvez, estivesse com menos sorte do que eu para ter um caso destes. Ou, quiçá, estivesse muito melhor… mas prefiro deixar esse ponto de vista de lado, ou esta crônica não seria de humor, e sim de tristeza.

O fato é que cumpri lá meus dias; e voltei para meu local de origem. Na mesma semana, enviei flores acompanhadas de um convite para saírmos. Esse caso ocorreu há muitos anos, vai daí que minha memória não seja das melhores. E não muito boas também eram minhas habilidades ao volante naquela época. Aprendi a dirigir apenas na autoescola e fazia poucos dias que estava legalmente habilitado a assumir o volante de um veículo motorizado.

Após buscá-la, fomos à procura de um restaurante na principal Avenida da cidade. Acontece que o local estava tão lotado que até mesmo as vagas de estacionamento da rua estavam saindo pelo ladrão. E, para piorar, tive de voltar dirigindo o carro de ré, pois não havia espaço para fazer a volta e a via era sem saída. Foi aí que lhe contei sobre minha recente inserção no ramo automobilístico ou, trocando em miúdos, minha pouca experiência em dirigir carros. E ela falou: “bom que você me diz isso agora”. Sorri amarelo.

Quando consegui deixar o lugar, suando pelo esforço naquela direção que não era hidráulica, peguei a Avenida Beira Mar Norte e rumei ao Continente. Ela elogiou uma música que tocava no aparelho de rádio do carro. Acho que era uma bossa nova, e lhe falei que eu mesmo havia gravado as canções numa fita cassete. “Selecionei para esta noite”, enrolei. Mas eis que começou um rap falando das conquistas não muito românticas de um jovem, estragando o ritmo e o clima.

No fim, escolhemos a pizzaria mais simples na qual não era preciso manobrar o carro. E foi só alegria durante uma ou duas horas. Mas na volta para casa, descobri que ela era muito religiosa e meus comentários existencialistas não foram lá muito bem entendidos. Sim, sim, até rolou uma certa intimidade, mas as lembranças que ficaram foram apenas essas de algum humor. Desde então, jamais a vi novamente. Lembrando disso agora, mais de uma década após estes eventos, penso que aquele funcionário, que estava de férias enquanto eu trabalhava, era sim um cara de sorte.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 26/07/2012.

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