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Ao perceber a chuva vermelha que escorria das folhas azuis de sua árvore geneticamente modificada para suportar altas temperaturas, Bento tratou de vestir seu traje de alta pressão. Pareceu não se importar muito, pois ninguém mais discutia sobre o temido aquecimento global que se concretizara ao fim do século 22, quando então a camada de ozônio quase foi, literalmente, para o espaço. Desde aquele tempo, todos os ambientes eram artificialmente climatizados e, graças à nanomedicina, as pessoas não viviam constantemente gripadas por causa do ar condicionado. Os caminhos mais comuns eram os subterrâneos, longe das intempéries e mais simples de serem ajustados. Todos aprenderam muitas técnicas de sobrevivência com os tatus, para dizer a verdade. Entre a Ilha de Santa Catarina e o Continente, um longo túnel subterrâneo conduzia os cidadãos e seus veículos movidos à areia líquida. E fora este o caminho que Bento escolhera para visitar sua namorada. Antes, porém, ainda precisava passar no Núcleo Base, a sede de distribuição de conhecimento, que ficava exatamente localizado na entrada insular do túnel. O local era tão organizado que qualquer falha no sistema sócio-ambiental, que controlava o meio ambiente externo e possibilitava a vida humana, seria percebida em menos de um segundo e corrigida em poucos minutos. Mas ninguém gostava de falhas, ainda mais porque o alarme era muito barulhento e todos tinham de entrar nos módulos de suspensão enquanto as Máquinas Ambientais reparavam os danos. Mulheres e homens, a partir dos 21 anos, deveriam prestar duas horas de trabalho por dia, contribuindo no funcionamento do Núcleo Base – todas as horas restantes eram aproveitadas como cada um bem entendesse. Bento fora escalado para monitorar o nível de chuva vermelha no litoral, entre às 14 e às 16 horas. Assim, garantiria que os fogos de réveillon não sofressem quaisquer obliterações durante a festa. Afinal, os moradores da Ilha estariam todos reunidos na Cápsula, o principal local de aglomeração da cidade construído sobre as águas da Baía Norte. A Cápsula era revestida com uma fina camada de plástico ultra-resistente, permitindo uma vista com 99,99% de transparência, suportando os constantes maremotos e tornados que visitavam a Ilha nas estações quentes. Assim que terminou sua verificação, Bento saiu tranquilo naquela tarde avermelhada de 31 de Dezembro do ano 2400. Ainda no túnel, acessou o tubo-terminal de utilidades e solicitou um simulacro de rosas vermelhas, que chegaram em exatos 30 segundos. Esperaria a hora da virada do século para pedir a namorada em casamento, mas um inesperado acidente atômico fez a Ilha se desgarrar do Continente, levando consigo o túnel, o Núcleo Base e o sonho de uma vida a dois entre Bento e sua quase noiva. O único vestígio encontrado pelos cidadãos do Continente foi um simulacro de rosas vermelhas boiando nas águas radioativas da baía.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 02/08/2012.

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