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Olhando por um sentido menos apaixonado ou aguerrido para com a arte popular, ficaremos um pouco ressentidos se lembrarmos que tudo poderia ter sido muito diferente, mais bem acabado e, obviamente, melhor. Porque essa necessidade de diversão ou essa pseudo-esperteza de alguns criadores nada mais é do que um sintoma mal inventado, mesmo que pareça fazer sentido sobre todas as coisas. Até o soldado sabe que “fazer sentido” nada mais é que uma obrigação involuntária. As rotinas, por certo, raramente são planejadas por quem espera sempre mais dos outros e de si mesmo. Essa falência de um bem querer (desejar o melhor) só teve no materialismo de nossos dias um retrato infiel e característico de um sonho que não deu certo. Vingou, isso é verdade, mas quando todos acordarem, se acordarem, verão que o assombro durou muito além do imaginado. A arte popular, outrora o que nos esperava atrás do arco-íris, caiu feito uma chuva torrencial; enxurrada de não-ideias largada a esmo. Mais do mesmo. E o complicado é que a repetição da prática não levará à perfeição. Dentre todas essas viagens pessoais, sociais ou planetárias, não existe um espaço claro de imensidão utópica. Tudo ao rés-do-chão como um chinelo surrado; os passos claudicantes num prejuízo preciso à longa caminhada humana. Poderíamos falar, em última estância, da natureza e seus fenômenos irracionais. Mas isso ficou démodée como todo o resto. A consciência está cuspindo para cima, sem saber para onde ir ou mesmo quem encontrar para ter com alguma coerência. Ainda que a ciência não queira viver na escuridão, almejando inclusive a totalidade do universo, soa-nos distante o sentimento de liberdade, parecendo pouco menos verossímil que um comercial de refrigerantes. Ou de cerveja. E, particularmente, fico preocupado com o amor, um velho guerreiro expatriado pela inconformidade de um tempo sem espaço. Se houve um esquecimento abissal dentro das estruturas da arte popular este se deu com o amor, porque ele não pode se proteger atacando, diferentemente de tantas outras intenções. O amor foi a intenção primeira que se tornou grande, mas padece de ir ainda mais para longe do senso comum – eis o conflito de criador e criatura chegando ao ponto mais extremo. Não acredito – novamente, lembro que esta é uma opinião individual sem a obrigação de ser compartilhada – que o clímax da arte popular surgirá da pressão das massas, tampouco que as elites sofrerão o revés mental para uma mudança significativa. Em algum momento, o amor sumirá sem deixar vestígios… e ninguém fará nenhuma arte para impedir.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 16/08/2012.

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