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Outra grave questão da educação é que as coisas estão ficando tão complexas que as responsabilidades já nem são tão visíveis assim. O estado tem sua culpa, mas não exclusividade da atual situação. As sociabilidades estão diferentes (internet, tv e afins modificando comportamentos) e as famílias não-nucleares já não dão suporte para aquele tipo tradicional de educação que se tinha com mais ênfase até os 60, com menos ênfase até o final dos 90, e com pouquíssima ênfase de 2000 para cá – em linhas gerais, claro.

Em última estância, poderíamos culpar os poderosos, ou o capitalismo… mas mesmo aquela educação tradicional de antes só existiu em função do capital. Veja-se que mesmo a literatura pós-revolução industrial foi produzida durante muito tempo por gente que esteve ligada ou à igreja ou à nobreza – dois ícones do acúmulo de capital. Peguem-se aí como exemplos nossos principais autores brasileiros do naturalismo, realismo e até um pouco antes do modernismo tardio de Mário de Andrade. Praticamente todos, incluindo nosso mestre-mor Machado de Assis, fizeram o que fizeram bancados pelo estado. E hoje não é nada muito diferente. Mesmo na Europa, os autores eram quase sempre bancados pelos eclesiásticos ou por mecenas. E, óbvio, o mesmo se deu com as outras artes. Ainda assim, façamos a ressalva: até o modernismo, as pessoas vinham de uma longa tradição na qual as criações ainda eram mais surpreendentes que as regras.

O pós-modernismo pôs fim às tradições, e ficaram apenas as regras mais esdrúxulas (alô, politicamente correto?) por companheiras. Assim, sobrou para a educação um método de ensino absolutamente defasado – e as tecnologias que surgiram nos últimos 20 anos só tornaram isso ainda mais claro. Alguém já disse que se um aluno do século XV (ou antes) fosse transportado para uma sala de aula nos dias atuais ele não se sentiria muito deslocado. O problema é que todo o resto mudou. Engraçado que o Paulo Freire, que é idolatrado no país e mesmo no mundo, escreveu sobre essa falta de “leitura do mundo” há décadas e ninguém entendeu bulhufas.

Absolutamente todos os países do globo estão vulneráveis às variações econômicas e às crises externas / internas. A economia mundial só mostra o óbvio: com ou sem educação, o que regula os mercados por aí em nada tem a ver com os bem educados. Não por acaso, o Brasil se tornou a oitava economia mundial mesmo com baixíssimos índices na área educacional. Ainda assim, não se trata apenas de dar o que o mercado quer, mas de atender à demanda básica do ser humano naquilo que o torna humano: o conhecimento.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 06/09/2012.

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