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Quando o psiquiatra Carl Gustav Jung elaborou o conceito da sincronicidade, ninguém fazia ideia de que o Erro Grupo provocaria reações adversas com sua intervenção Hasard justo num 11 de Setembro, dia histórico dos velho e novo milênios. Mais sincrônico e crônico ainda é algo como a demissão da Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, ter ocorrido no mesmo dia, então em 2012, data que o cronista viu Hasard em plena Praça Nereu Ramos, no Centro de Biguaçu.

Nem eu e tampouco Jung previmos tudo isso, mas não deixa de ser um jogo dedutivo que tantas circunstâncias se apresentem concomitantes. E jogos são nossos flertes com o imprevisível. Mesmo num baralho de cartas marcadas, há sempre o momento de perda… Perdemos o controle, ou um sentimento, ou um aspecto simultâneo da realidade que nem chegou a ser. Se Hasard é qualquer coisa muito aleatória, também assim nos parece todo o resto do cotidiano. Mesmo que estejamos juntos, lado a lado, eu e você veremos recortes que serão mais ou menos vagos a partir do que melhor nos aprouver.

Como noutras intervenções, não importa o momento que o espectador/partícipe modifica os rumos da história. E se há uma história, esta é a da humanidade, porque chegamos ao ponto em que tudo se dilui, estejamos atentos aos erros – e ao Erro Grupo – ou não. Como o cidadão não pode fugir da sociedade, a cultura também não escapará ao desavisado transeunte que estava apenas caminhando pela praça para pagar suas contas, ou comprar novos bens (bons ou maus) materiais.

As quatro performances que acontecem em sincronia durante Hasard são infinitas porque também se parecem com os fractais – pois que um fractal pode ser dividido em várias partes, todas semelhantes ao modelo original. E nesse mundo matemático-analítico, que mistura uma ministra demitida, violações sociais históricas (11 de Setembro, seja no golpe chileno de 1973 ou nos atentados aos estadunidenses em 2001), os pensamentos de uma práxis junguiana e tantos outros jogos mais, pouco vale perder ou ganhar. As muitas crianças e jovens que acompanharam a intervenção em Biguaçu foram e são testemunhas de que o divertimento (o motivo mais nobre da cultura) se dá por formas inesperadas. E o inesperado também é sincrônico, e cômico, e econômico na medida em que toda forma contemporânea de arte esconde ou mostra uma face do mercado.

Não interessa que a sociedade não compreenda a sincronicidade. Há muito mais experiência em cada segundo da realidade que qualquer conceito ou crônica urbana possam revelar. E isso é um problema?, você me pergunta. Não, respondo: basta admitir que num jogo é possível perder e ganhar com alguma margem de erro.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 13/09/2012.

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