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Mas ele era um escritor confuso. Possuía as qualidades mais inverossímeis da escrita desordenada. Não fosse pela falta de jeito, seria um esbanjador ou, ao menos, um autor de porte. Como queria se livrar daquelas velhas fotografias! – e das atuais igualmente. Onde estava com a cabeça ao pensar que tudo acabaria bem? Todo mundo sabe que um sólido adeus repercute mesmo por tempos líquidos. Ela o abandonaria, mesmo e apesar de tudo. Tinha certeza disso. Já não haveria mais clima para conversas ou quaisquer outras formalidades. As refeições, não importam local ou sommelier, já perderiam o sabor quando tudo fosse revelado – e fatalmente isso aconteceria em alguns poucos dias. Porque estava envolvido dos pés até o pescoço, o coração já cedera aquele espaço nobre para outrem que não ela. A mente, prejudicada pelo corpo adversário, duelava consigo mesma em possibilidades e outras opções de risco. Sentia-se angustiado por uma pressão oculta de pessoas que jamais o trataram com gentileza. E, para ser algo honesto, achava tudo isso ridículo, mas ainda o incomodava. Fingir sorrisos ou dizer frases feitas cada vez mais se tornava frequente e frustante. Era maravilhoso quando não sabia o que sentia e apenas satisfazia as ideias com elucubrações de gênero ao redor de uma mesa cheia de bebidas e cinzas de cigarro. Não amava fumar, mas fumava – vez por outra, que se registre. Utilizava certa moderação para quase tudo, o que tornava ainda mais perturbador aquele recente sentimento. Precisava se concentrar no trabalho, mantendo suas convicções e proposições no mesmo ritmo de sempre, mas era justamente ali onde o problema se encontrava. Ele era um escritor confuso, sem dúvidas. O trabalho de editor deveria facilitar as coisas, porque já se tornara especialista em separar as partes boas e identificar os pontos que mereciam mais destaque. Só não contava com problemas que se disfarçam de virtudes. E que virtudes aquela jovem trazia escondidas sob uma serenidade avassaladora impressa nos olhos escuros. Havia ocasiões em que ela parecia uma espécie em extinção de tão única. Nestes momentos, o escritor tirava seus óculos, esfregava os olhos com as mãos, depois limpava vagarosamente as lentes e só então voltava a respirar. A cada novo encontro, o alívio pela sobrevivência se lhe apresentava como uma fuga necessária – e ainda bem que fugir não parecia tão desesperador. Estava prestes a jogar tudo para o alto e se arriscar no que há de mais incompreensível em se apaixonar, mas não houve tempo: o mundo simplesmente acabou, pelo menos para aquele escritor confuso.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 11/10/2012.

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