Tags

, , ,


O sujeito acordou certo dia, mas foi em hora errada que se descobriu desempregado. Só era estranho que o mundo continuasse a ser maravilhoso e horrível qual antes, com a sutil dicotomia das parcialidades humanas a iluminar o tempo.

Trabalhava no mesmo escritório já há alguns anos, e seus colegas não entenderam patavina quando souberam da sua demissão. O burburinho nos corredores começou feito uma comichão e logo se espalhou por todo o corpo funcional. “Mas o que ele fez? Será que se envolveu com a pessoa errada? Subtraiu algum número indevido das contas? Trocou os móveis de lugar sem autorização?” – todas eram perguntas válidas e objetivas, mas não passavam de meras especulações.

Sejamos alguma coisa honestos para com a verdade dos fatos, pois uma mea culpa tem um lugar cativo nas boas histórias: era pouco pontual. Entretanto, seus atrasos vinham acompanhados de desculpas muito bem fundamentadas. Num dia, o carro dera problema. Noutra oportunidade, tivera de realizar uma viagem urgente para tratar da saúde. Às vezes, porém, o despertador falhava e a culpa era do bendito horário de verão! Mas nada disso tirava seu mérito de servidor.

Servir, ainda é preciso dizer, parece ser uma condição sine qua non para todos aqueles que almejam ser reconhecidos como bons funcionários. Não basta um sorriso forçado no rosto e tampouco posar de importante. Os talentos verdadeiros aparecem sempre da maneira mais comedida e menos expansiva – salvo, é claro, se o objetivo principal consiste em atuar qual bobo da corte. Você e eu já nos deparamos com este tipo mequetrefe de trabalhador; acomodado em ser papagaio de pirata, desiste de seus voos solo em troca de vantagens no alto escalão. É fácil reconhecê-lo no papel de sócio-minoritário, como que imitando o papel da hiena que se banqueteia com as carcaças deixadas pelos leões.

Falemos, assim, de leões e cordeiros, porque o desempregado consegue discernir claramente os dois tipos. Quando ainda tinha o emprego, o sujeito até mesmo se divertia com aquela miséria humana característica das relações hierárquicas. Não que um comando seja necessariamente ruim, mas convém aos ignóbeis superiores pensar que sabem muito mais do que aquilo que realmente compreendem, menosprezando o talento natural dos cordeiros.

– Mas que miseráveis! Faltando tão pouco tempo para minha aposentadoria e me demitem, disse o ainda abalado desempregado sem justa causa.

Tempos depois, a personagem principal desta história não se aposentou e ainda abriu uma empresa que está prestes a falir porque, segundo comentam nos corredores, nunca conseguiu demitir ninguém.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 25/10/2012.

 

Anúncios