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O que me incomoda profundamente não é tanto a incompetência das administrações públicas brasileiras, mas principalmente a defesa das práticas burras a favor de uma pseudo defesa das garantias democráticas. Caso alguém ainda não tenha compreendido, nivelar por baixo não distribui renda ou sabedoria. A ignorância política é a pior das ignorâncias porque pressupõe a falta de ligação entre os grandes problemas sociais.

E essa não é uma questão contemporânea. Alguém aí se lembra porque Luís XVI e Maria Antonieta perderam as cabeças? Numa palavra: descontrole. Antes como agora, várias foram as oportunidades que os governantes perderam para comandar lado a lado daqueles que representam. Nas mal chamadas repúblicas, a escolha de um representante deveria ser o sucesso da maioria e não se transformar na glória pessoal do político. E se Maria Antonieta estava preocupada demais em frivolidades materiais não parece muito diferente destes mandatários de egos ainda maiores que seus patrimônios financeiros.

A historiadora estadunidense Barbara W. Tuchman, em seu livro “A Marcha da Insensatez”, apresenta uma curiosa e ignóbil tradição de governantes que buscam políticas contrárias aos seus próprios interesses. De Tróia ao Vietnã, a historiadora desnuda a fragilidade dos governos e afirma: “Sendo óbvio que a perseguição de desvantagem após desvantagem é algo irracional, concluímos, em consequência, que o repúdio da razão é a primeira característica da insensatez”. Por isso, os troianos aceitaram o cavalo; por isso, os Estados Unidos entraram no Vietnã, mesmo que tudo levasse a crer que essa seria uma jogada ruim.

É arriscado especular se vivemos ou não num período de transição, especificamente no caso brasileiro. É da mesma forma pouco prudente imaginar que qualquer período histórico não seja um longo processo transitório, o que dá margem para muitas teorias tão bem fundamentadas quanto inacabadas. E alguma lógica existe para que após um momento tão revigorante quanto o Renascimento apareçam os governos autoritários ao longo do século XX. Inflados por um poder que não lhes é de direito, esses ditadores de ocasião caminham para a inexorável derrota. Mas se duas grandes guerras ainda não extinguiram esses déspotas do planeta, há algo de podre nessas democracias tão exaltadas quais sejam americanas ou europeias.

Os políticos brasileiros marcham, mesmo sem saber, para o expurgo. Haverá um tempo em que as mudanças serão irrevogáveis e os governantes que pregam a burrice servirão apenas para as aulas de história, como um capítulo complementar ao livro da Barbara.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 15/11/2012.

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